O bode expiatório

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Publicado terça-feira, 23 de outubro de 2012 as 12:40, por: cdb

Nesta semana estamos celebrando no Brasil um importante rito de expiação. Segundo a tradição, um bode expiatório (de nome José Genoíno) está sendo sacrificado no altar da honorabilidade nacional. Logo depois, ele será precipitado do alto do terraço do templo, rio abaixo. Aí vamos todos entoar louvores a Deus e respirar aliviados, pois estamos de novo purificados e regenerados. A grande mídia (Globo, Veja, Isto é, etc.) terá a incumbência de celebrar o momento proclamando que doravante ‘o Brasil mudou’. Os pecados do PMDB, PSDB, etc. e todos os malfeitos do passado desaparecem no momento em que a vítima (que significativamente é do PT) é precipitada para baixo. O sumo sacerdote Joaquim Barbosa vai remover penosamente o pesado reposteiro que separa o santo dos santos de nosso pobre mundo pecaminoso e vai oferecer a Deus o cálice com o sangue do cordeiro imolado.

Contudo, essa celebração deixará um gosto amargo para quem não consegue esquecer três coisas que nos incomodam a mente nestes dias.

Em primeiro lugar, ritos expiatórios não são novidade na história humana. Os documentos que nos restam da primeira história da humanidade, dos tempos dos caldeus, assírios, babilônicos, egípcios, gregos e romanos, atestam invariavelmente celebrações solenes de ritos em que uma vítima é sacrificada para livrar a comunidade toda da ira de Deus. Esses documentos estão à disposição de todos, seja em forma de tabuletas de cera, em tiras de papiro ou ainda em ruínas de monumentos antigos que qualquer turista pode encontrar em países como o Iraque, a Turquia ou o Egito. Os ritos expiatórios pressupõem que Deus seja tão vingativo como nós. O que causa estranheza é que eles continuam inalterados, mesmo após a chegada do cristianismo, a revolução francesa e a instalação das democracias modernas. Nesta semana, o ritual chega ao supremo tribunal federal em Brasília.

Um segundo ponto. No novo testamento existe uma carta, escrita por volta do ano 65 (35 anos depois da morte de Jesus), que se chama ‘Carta aos Hebreus’. Trata-se de um texto indignado contra a ideia de que Jesus teria sido ‘o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo’. O autor argumenta que essa ideia é totalmente contrária ao que dizem os profetas e, mais ainda, ao que vivenciou o próprio Jesus, que não tinha a intenção de se ‘sacrificar’ e ‘salvar a humanidade da ira de Deus’, mas lutou ferrenhamente pela justiça em sua terra natal e por isso se chocou com as autoridades, sendo cruelmente torturado e assassinado. Mas, de novo, o estranho acontece. Embora não exista nada mais distante de Jesus que a ideia de um Deus vingativo (ele proclamou sempre que Deus é amor), a ideia de ‘Jesus cordeiro’ prevalece até hoje na mente de muitos cristãos que confundem eucaristia (banquete de fraternidade) e ‘santo sacrifício da missa’. Uma confusão que só pode ser superada por uma leitura inteligente, atenta, autônoma e livre do novo testamento.

Uma terceira observação: o rito ‘justiceiro’ desta semana mostra que não podemos dizer que vivemos numa sociedade cristã, mesmo vendo o grande crucifixo pendurado no tribunal supremo, acima da cadeira do presidente Aires Brito (por quem cultivo o maior respeito). Pois esse crucifixo, para quem toma a sério as coisas e não brinca levianamente com símbolos, nos remete ao oitavo capítulo do evangelho de João. Conhecemos a história: letrados e fariseus trazem diante de Jesus uma mulher casada, surpreendida com outro homem, e eles argumentam que, diante da lei, essa mulher deve ser apedrejada. Aí Jesus responde: ‘quem não tiver pecado atire a primeira pedra’.