O balanço da guerra

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Publicado quinta-feira, 1 de maio de 2003 as 18:34, por: cdb

Meu preclaro leitor ou minha preclara leitora: se pensaste que eu ia fazer meu relatório final sobre a invasão do Iraque, cometeste ledo e ivo engano. Bem que eu queria fazê-lo; mas resolvi esperar pela proclamada declaração do fim da guerra por George Bush. Se é que ela vem.

Estou me referindo na verdade à guerra entre o governo e a “sua” esquerda, que nos últimos dias atingiu níveis efervescentes, e que a imprensa neoliberal assiste de cadeira cativa (arquibancada é para o povão). Por ora insensam-se nela as reformas, sobretudo aquelas que retirem direitos de trabalhadores, taxados sempre com a qualificação pejorativa de “privilégios”.

O epicentro da guerra agora pode ser descrito como a tomada da previdência. O grupo da esquerda fez um sério bombardeio na região da cobrança dos inativos, provocando muitos estragos. Já o grupo centrado no governo tomou o centro da questão da unidade partidária, de onde promete provocar sérias perdas do outro lado. Entrementes a ousada senadora buscou apoio junto a veteranos combatentes (ou aliados?) de outrora. Não se sabe se o movimento provocará mais baixas, ou se ao contrário aportará mais reforços para suas linhas. Comenta-se: será expulsa ou defenestrada automaticamente, já que do PT, parece, ninguém quer sair, nem mesmo os que acham que ele “endireitou”.

Já um outro setor partidário prefere um tiroteio de trincheiras… enquanto as linhas sindicais anunciam suas posições. A que antes era a favor de todas as reformas, inclusive promovendo acordos que removiam carteiras e demais direitos trabalhistas, agora promete se bater como um leão contra a menor vírgula reformada. Já a “nossa”, deste lado, que no começo via com bons olhos algumas das reformas, agora posiciona suas linhas em posição de ataque. Logo adiante, na trincheira dos sindicatos do setor público, prepara-se a trincheira de Canudos e instala-se um clima de “no pasarán”… e por aí vamos.

A vítima

Confesso que estou um pouco cansado da balbúrdia. E acho que ela ajudou a fazer uma vítima, uma única e grande vítima: o assim chamado trabalhador. Estamos redigindo estas mal traçadas em 30 de abril, às vésperas do primeiro 1º de Maio na história do país com um governo de esquerda no Distrito Federal. Folheio os jornais do meu País: salvo uma ou outra exceção, paira um silêncio tumular sobre este personagem, que, afinal, dá nome ao partido em que ocorre a balbúrdia.

A redação do atestado de óbito deste personagem data de longe. Decretou-se a morte do trabalho, do emprego, da carteira assinada (ou assassinada?), e colocaram-se na UTI da história, à espera de sua deletação, coisas como férias, descanso remunerado, licença maternidade, licença paternidade. Foi-se desconstruindo (para usar um termo pós-moderno) tudo aquilo que constituía a identidade deste personagem, o trabalhador, antes responsável pela construção da riqueza do país.

O auge deste ataque deu-se tempos atrás, quando o anúncio do aumento do salário mínimo em abril passou a ser utilizado para descaracterizar o 1º de Maio como data comemorativa. Progressivamente, vai-se perdendo o sentido da data, seu alcance fica restrito a umas manifestações setorizadas, mesmo que grandes por vezes. O 1º de Maio está virando uma espécie de quermesse de bairro: grande ou pequena, o que importa são as barracas da festa, não o conteúdo das orações.

Os sucedâneos

Fala-se de tudo na imprensa e nas discussões sobre as reformas: o risco Brasil, o índice Dow Jones, a queda do dólar, a captação de investimentos no exterior, a economia dos governos e assim por diante. Tudo isso é a nova “riqueza nacional”. Do trabalhador, neste momento, restou a ruidosa questão de se taxar ou não os inativos. Mas o bom ativo de hoje é o perigoso inativo de amanhã. E que inativo é este que trabalhou a vida inteira em troca de um salário magro e de uma aposentadoria distante? Não é ele também um trabalhador?

Fosse feita em nome do trabalhador, a discussão das reformas