O 11 de setembro no Chile

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Publicado terça-feira, 4 de setembro de 2012 as 13:21, por: cdb

Tradução: ADITAL

Pouquíssimos cidadãos estadunidenses sabem que junto à comemoração da tragédia das Torres Gêmeas, em Nova York, aqui no sul, também temos razões para recordar com tristeza em cada 11 de setembro. Poucos recordarão que foi seu próprio governo estadunidense, encabeçado por Nixon e Kissinger, quem financiou e preparou um golpe de Estado em 11 de setembro de 1973, em um pequeno país da América do Sul, para derrocar a um governo constitucional presidido por Salvador Allende.

É claro que se tratou de mais uma felonia, maneira pela qual a Casa Branca trata a todos em todo o planeta.

Para os chilenos, em troca, tal data tem sido uma mancha em nosso calendário; mancha que delata algo sujo, lamentável e infinitamente triste, que marca nosso presente. Apesar de que há alguns sem juízo que celebram o genocídio; outros, preferem calar, como se o silêncio tornasse a vergonha menor.

Passaram-se já quase 40 anos desde o nefasto episódio; no entanto, nosso país não conseguiu até a data sair da fetidez de tantas tumbas sem nome, de tanto abuso impune.

No Chile, contra o que acreditava o filósofo, impôs-se a lei do mais forte. Toda a violência desatada naquele dia teve como corolário o prolongamento do poder dos poderosos.

A ditadura de Augusto Pinochet foi capaz de reinstalar em nosso país a velha ordem oligárquica sob roupagens neoliberais. Um punhado de famílias concentra todo o poder econômico e político, domesticando a multidão no consumo suntuário.

A desigualdade se instalou entre nós, perpetuando a injustiça de séculos.

Durante 39 anos, assistimos à tragédia de uma ditadura cruenta, com sua sequela de cadáveres, de torturados, de desaparecidos; porém, também, a farsa de uma democracia que tem sido incapaz de restituir, minimamente, um sentido ético e cívico no seio de nossa sociedade. O esclarecimento de muitos crimes de lesa humanidade cometidos em nosso país continua sendo uma dolorosa tarefa pendente.

O país tem sido conduzido pela amnésia, pelo esquecimento interessado por sua própria ferida. O esquecimento se impõe por todo lado quando os culpados andam soltos e impunes.

A memória é abolida em cada supermercado e em cada programa de televisão que enaltece a figura de nossos militares, exibindo a cenografia tricolor para que a multidão ébria de patriotismo não recorde os “campos de concentração”, as prisões em massa, os milhares de torturados/as e desaparecidos/as.

A televisão nos mostra ao senhor prefeito ensaiando passos, em cuecas, esquecendo que esse senhor foi agente militar de organismos de segurança do ditador. Dizer verdades incômodas não está na moda e não é “politicamente correto”; porém, é indispensável dizer-lhas às novas gerações, aos herdeiros desse país.