Nova produção Aida omite pirâmides em favor de rituais pagãos

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 28 de abril de 2010 as 14:04, por: cdb

Elefantes e pirâmides egípcias deram lugar a violência étnica, rituais pagãos e morte na nova produção, repleta de sangue e sexualidade, apresentada pela Royal Opera House de Londres da clássica ópera Aida, de Verdi.

O diretor David McVicar e o designer de produção Jean-Marc Puissant buscaram enraizar a narrativa no passado, mas evitar uma ambientação em um lugar específico, para tentar tornar a história mais relevante para um público contemporâneo.

Assim, em lugar de destacar o antigo Egito, outras influências, desde astecas a guerreiros samurais, estiveram entre as inspirações dos figurinos e cenários da ópera.

Puissant também baseou-se em fotos da capital afegã Cabul, devastada pela guerra civil, e em pinturas de Mark Rothko para criar um pano de fundo escuro, quase sem cor, para a história sangrenta.

Cadáveres esfolados ficam suspensos sobre o palco na cena que ocorre no templo da deusa Ísis, e homens são sacrificados após uma erótica dança da morte, em uma produção que dividiu o público que lotou o teatro na estreia da ópera, na terça-feira.

Os cantores foram fortemente aplaudidos, mas, quando a equipe de produção subiu ao palco, ao término do espetáculo, alguns espectadores a vaiaram.

– A intenção principal de meu design de produção foi seguir as diretrizes do diretor… para que os temas de Verdi fossem vistos como o que são, e não através do visual do cartão postal do Egito –, disse Puissant.

– Acho que isso provocou algum espanto, mas estou muito satisfeito com isso –, acrescentou, indagado o que achou das reações na estreia.  

– As pessoas vão para casa e refletem sobre o que viram. Acho a discordância do público algo bastante saudável, especialmente com uma obra como Aida.

Puissant disse que o que Verdi quis fazer, em primeiro lugar, foi justamente tornar Aida relevante para o público contemporâneo.

Embora a história seja ambientada no antigo Egito, a guerra com a Etiópia significa que os personagens se veem presos em uma situação semelhante à de muitos países hoje, disse ele.

– Existe algo de universal e atemporal no que acontece após uma guerra. Quisemos mostrar um pouco disso, sem sermos demasiado literais.

Puissant não colocou cores fortes sobre o palco, argumentando que as cerimônias religiosas no antigo Egito provavelmente eram realizadas à noite, e não sob o calor forte do dia.

As primeiras resenhas críticas foram positivas. O jornal The Independent deu quatro estrelas à produção (de um total possível de cinco).

Aida ficará no Royal Opera House até 16 de maio.