“Nível do dólar é exagerado”, diz Figueiredo

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Publicado domingo, 23 de fevereiro de 2003 as 11:51, por: cdb

O dólar acima de R$ 3,60 está num nível muito exagerado, afirma o diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Luiz Fernando Figueiredo. “O regime é flutuante e o BC não define a taxa de câmbio, mas ela está muito mais desvalorizada do que o minimamente razoável.”

Para Figueiredo, um dos principais fatores que impedem a queda do dólar é que boa parte dos agentes econômicos, como bancos e empresas, por exemplo, não se deu conta de quanto encolheu de fato a necessidade de financiamento externo do País, além de não ter percebido que um dólar nos atuais níveis não só mantém como aprofunda o ajuste das contas externas.

“O déficit em contas correntes neste ano, que o BC projeta em US$ 5 bilhões, algo como 1,3% ou 1,4% do PIB, pode ser ainda menor se a taxa real de câmbio seguir nesse patamar”. E, prossegue ele, o volume de investimentos estrangeiros diretos deve ficar em US$ 15 bilhões em 2003, ou seja, três vezes mais do que o buraco em contas correntes (que inclui a balança comercial, a de serviços e as transferências unilaterais). “O Brasil nunca teve uma situação externa tão tranqüila.”

Para Figueiredo, o dólar não cai também porque as pessoas “se acostumaram com uma taxa de câmbio mais alta e acabam achando que esse é o nível de equilíbrio”. O temor quanto aos efeitos de uma guerra entre os EUA e o Iraque também ajuda a explicar a resistência da moeda nos atuais níveis. Mas, diz ele, um dos problemas é que muitas análises são feitas como se o Brasil fosse enfrentar essa turbulência internacional com “um déficit em contas correntes de 4,5% do PIB, e não de 1,3% ou 1,4%.”

Para Figueiredo, o País também não deve ter grandes dificuldades para rolar os US$ 27 bilhões referentes às amortizações de dívidas públicas e privadas com mais de um ano de prazo, que vencem em 2003. Desses US$ 27 bilhões, US$ 10 bilhões podem ser cobertos pelo volume de investimentos diretos que excede o déficit em contas correntes.

Além disso, ele estima “conservadoramente” que as amortizações devem ser pelo menos US$ 5 bilhões inferiores a esses US$ 27 bilhões, porque em 2002 o BC e muitas empresas recompraram títulos negociados no exterior que vencem neste ano. Com tudo isso, o País teria de rolar cerca de US$ 12 bilhões das amortizações inicialmente previstas, um número confortável, segundo Figueiredo.

Para ele, à medida que os investidores notarem a magnitude real do ajuste externo, o dólar tende a cair. O que pode impedir uma queda mais rápida é o cenário internacional. No entanto, mesmo com um quadro de elevada aversão global ao risco, Figueiredo entende que o Brasil deve sofrer menos do que em crises anteriores . Como esperado, ele não disse qual é o nível de câmbio de equilíbrio na visão do BC.

Segundo analistas, uma queda do câmbio seria crucial para aliviar a pressão sobre a inflação, hoje a principal dor de cabeça do BC. Mas, como a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que elevou os juros básicos de 25,5% para 26,5% ao ano e elevou o compulsório sobre os depósitos à vista só será divulgada na quarta-feira, Figueiredo preferiu não falar sobre inflação.

No cargo desde 1999 , Figueiredo está saindo do BC, a seu pedido. Ele será substituído por Luiz Augusto Candiota. Mesmo depois de o Senado aprovar o nome de Candiota, Figueiredo deve ficar no BC por mais uma ou duas semanas, para fazer a transição. Depois disso, Figueiredo vai ficar quatro meses de quarentena, durante os quais pretende “descansar muito” e eventualmente dar aulas. Seu futuro profissional, de acordo com ele, ainda não está definido.