Não haverá happy end

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 25 de março de 2003 as 16:59, por: cdb

O roteiro da guerra, escrito pelos falcões da Casa Branca está sendo reescrito. O cenário também foi preciso mudar e o fim, que devia ser meloso com abraços e aqueles beijos de homens no rosto dos soldados americanos, também será revisto. Em lugar de happy end, os autores da invasão americana ao Iraque terão de se sujeitar ao maktub.

Alá, todo-poderoso, que Seu nome seja sempre bendito, Padrinho dos filhos de Ismael, parece exigir uma participação mais evidente, no roteiro, face aos aplicadores da jihad cristã que tinham pronunciado a fatua contra Saddam Hussein. Apesar dos sinais escritos nos céus pela cavalaria alada anglo-americana, os iraquianos rejeitam ser libertados da ditadura e defendem o direito de continuar a pertencer ao tirano Saddam, aterrorizados diante da possibilidade de ficar sob a proteção de Bush, também conhecido como pistoleiro do Texas, ou o “homem da cadeira elétrica”.

Pimenta nos olhos dos outros é colírio. Quando Rumsfeld soube da exibição dos prisioneiros americanos pela televisão iraquiana, esbravejou e ameaçou recorrer à ONU (que acabam de desrespeitar) para serem aplicadas as Convenções de Genebra para prisioneiros de guerra.

Vai ser uma boa, porque o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, comissário dos direitos humanos, poderá aproveitar para pedir aos EUA que respeitem os direitos dos cidadãos de origem árabe e de confissão muçulmana, presos sem razão definida e sem direito a julgamento. E para respeitar os direitos humanos dos islamitas da Al Qaeda, transferidos para a base de Guantânamo.

Enquanto chovem bombas sobre a Bagdá, obscurecida pelas fogueiras de petróleo, ateadas pelos iraquianos para cegar as bombas inteligentes, Alá prepara para esta quarta-feira uma nova tempestade de areia. Daquelas que penetram nas juntas e hélices dos helicópteros e mesmo nos canos dos fuzis.

A apenas 80 km de Bagdá, os soldados americanos, decepcionados com a ingratidão dos que vieram libertar, vão ficar de fora da cidade com medo de entrar e caminhar por suas ruas. Cansados, dormindo mal nos quatro dias de viagem, não terão o apoio de uma frente norte, por culpa dos turcos que lhes fecharam o caminho.

A guerra fácil que Bush lhes tinha prometido está transformando suas tropas em beduínos do deserto. Não podem entrar em Bassora, nem em Nassiriyah. Nenhum hotel, nenhum chuveiro, nenhum pijama. Mal amados, não compreendem como os iraquianos derrubaram um helicóptero Apache com velhos mosquetões.

Amanhã, Bagdá.