Na casa dos Karamabloch

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Publicado segunda-feira, 1 de março de 2010 as 17:35, por: cdb

De repente me lembrei de uma promessa não cumprida. E já faz tempo. Tinha comprado, em Santos, na livraria Realejo, no Gonzaga, o livro Os Irmãos Karamabloch e prometera comentá-lo, coisa nunca feita.

Ora, a Manchete surgiu para mim num momento quase dramático, em Paris, quando depois de uma frustrada viagem, como professor de jornalismo, para Orã, na Argélia, vivia com minha companheira e filha de um ano no limite da miserabilidade. E tudo aconteceu no estilo telenovelesco.

Ao fazer a entrega de encomendas para a livraria Sciences Politiques, rue St. Guillaume, estacionei a furgonete Citroën (com a qual ganhava um mínimo para comermos) perto da Cour Albert I, e decidi ir visitar um amigo da época, o jornalista carioca, Carlos Freire, da equipe da Editora Bloch. A editora alugava um enorme apartamento, numa área de prestígio da Rive Droite parisiense.

Subi as escadas atapetadas, num vermelho vivo, e me abriu a porta a secretária portuguesa. Perguntei pelo amigo e me disse que “já lá não estava mais”. Surpreendi-me, pois estivera com ele, alguns dias antes no Quartier Latin, e manifestei minha estranheza. “Pois foi demitido hoje de manhã. Mas entre, quem sabe quer falar com o novo diretor”.

Lá dentro, pedi que me explicasse o que acontecera. Soube, então, ter havido uma demissão coletiva da equipe, tanto do texto como das fotos.

– O senhor Adolpho chegou hoje do Rio, de surpresa – contou-me ela, ambos ainda de pé no salão de entrada vazio e silencioso – por volta das nove e meia, disse-me bom-dia e foi nas salas dos redatores e do fotógrafo. Como não havia ninguém, exceto o contador e encarregado da publicidade, perguntou onde estavam. Já vão chegar, disse o contador Silvio Silveira, antigo músico e cozinheiro, reconvertido em vendedor de espaço na Manchete para empresas parisienses.

– Como às dez horas ainda não tivesse chegado ninguém, sentou-se naquela poltrona, nervoso, calado e com cara de poucos amigos, prosseguiu a secretária. Começaram a chegar, quase ao meio-dia, o Carlos, o fotógrafo (era Alécio de Andrade, que depois foi da Magnum e morreu quase na miséria), e, à medida que entravam, o senhor Adolpho os ia demitindo.

– Fora, fora – berrava – está despedido. E, assim, ao meio-dia e meia, só restamos eu e o senhor Sílvio como funcionários desta sucursal.

Silvio, gaúcho, de bigodinho, bem vestido, ouviu a conversa e veio ver quem era. Me cumprimentou, eu de sandálias, calça Lee, camisa esporte, cabelos compridos e me comunicou ter sido nomeado o novo diretor. Naquela função, eu tinha conhecido, numa visita bem mais anterior, o enorme Ney Sroulevich.

– Como vão trabalhar sem pessoal ? arrisquei perguntar. Com agências, me respondeu. Mas – insisti – a revista tem reportagens com brasileiros em Paris, coisas exclusivas que as agências não fazem.

Senti que essa questão não lhe tinha passado ainda pela cabeça e me veio a inspiração que salvou a mim, mulher e filha, de morrermos de fome, naquela Paris do começo dos anos 70. Deixei meu endereço, onde estava morando de favor, não esquecendo de juntar em francês o correspondente a “aos cuidados de” e o nome de meus amigos, locatários de férias e me despedi sem qualquer esperança.

No dia seguinte, vejo um envelope na caixa do correio, pego para juntá-los às outras correspondências dos meus amigos, mas vejo o enorme M de Manchete, num fundo vermelho, e leio que é para mim. Naquela época, não havia email, mas em Paris se usava o pneumatique, correspondência circulando por vácuo dentro de tubos, como telegramas.

Foi assim que entrei para a família dos Karamabloch, no dizer de Arnaldo Bloch, sobrinho de Adolpho, e autor do livro. O clima era paternalista, vez ou outra Silvio fazia almoços e comíamos juntos numa enorme cozinha ou no salão, como se fôssemos uma família unida.

Free lancer, vivendo de sugestões aprovadas ou de pedidos de matérias do Rio, logo percebi o clima tenso, a insegurança, a extrema competição em que vivíamos. Adolpho, o amigo que poderia virar seu inimigo, sem ser possível saber o que poderia agradar ou desagradar o chefe. A revista comprometida com os militares, mas onde aparecia um cassado JK, com seu sorriso e sua elegância. Um clima de criar úlcera e que só poderia mesmo terminar, como terminou, numa falência. Porque os Karamabloch viviam, entre eles, aquilo que conseguiam transportar para o cotidiano de seus empregados.