Muros de Bagdá são cobertos por pichações

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Publicado terça-feira, 18 de novembro de 2003 as 12:12, por: cdb

Enquanto partidos políticos e empresas aproveitam o vácuo de poder num país que ainda não conta com governo eleito, Constituição ou Parlamento, Bagdá virou a cidade dos grafites e das pichações.

Os muros da cidade de 5 milhões de habitantes estão repletos de mensagens diferentes desde abril, quando a queda de Saddam Hussein pôs fim a três décadas de ditadura e controle do Estado.

Desde então, surgiram inúmeros jornais e partidos políticos, mas a televisão estatal se conserva apolítica e a imprensa escrita alcança apenas uma parte pequena da população.

A situação de segurança continua tensa, fato que impede os partidos de realizarem comícios de rua. As autoridades interinas, apoiadas pelos EUA, ergueram placas pró-democracia em que dizem à população que “queremos que os iraquianos façam da consciência seu único censor”.

Os únicos slogans públicos que a população conhecia até abril eram os lemas do governista Partido Baath, tais como “uma só nação árabe com uma só mensagem eterna”.

Naquela época, o comércio e os serviços só podiam anunciar se fizessem um acordo com Uday, o todo-poderoso filho de Saddam. Hoje não existe organismo regulador, e os anunciantes tomaram conta dos muros.

“Todas essas pichações e esses grafites são o caos da democracia”, disse Ahmed Abu Shant, da empresa publicitária Nineveh Advertising.

“O comércio de eletro-eletrônicos cresceu vertiginosamente, e não há impostos a pagar porque ninguém supervisiona o setor publicitário.”

Slogans políticos

A política é responsável pela maior parte dos grafites de Bagdá. “Sim para o líder Saddam Hussein”, diz uma mensagem que cobre um muro na estrada principal que leva à capital.

“Não ao canal pró-Saddam Al Jazeera”, responde outro, referindo-se ao canal árabe por satélite visto como tendo sido contra a guerra.

“O islã é a solução”, proclama uma mensagem. “A solução é a democracia”, responde outra.

Até mesmo a banda de rock Metallica é mencionada pejorativamente, numa mensagem escrita em inglês.
Em outra rua, faixas diante do escritório da União Patriótica do Curdistão se erguem diante de um muro repleto de mensagens do Partido Republicano Livre.

Na Praça da Libertação, no centro de Bagdá, islâmicos e comunistas disputam a atenção pública.

Mau gosto

“Basta!” disse o semanário satírico Hababooz em sua primeira edição de novembro. “Os muros da cidade clamam por socorro.”

Para a editora da revista, Ishtar Al Yasiry, a explosão de grafites em Bagdá é um fenômeno natural, agora que terminou a repressão do período batista.

“Esta nova ‘cultura dos muros’ oferece um espaço para as pessoas extravasarem, mas não é muito civilizada”, disse ela, apontando para slogans que insultam a honra da família de Saddam. “A polícia tem coisas mais importantes a cuidar neste momento.”

Há uma coisa que chama a atenção: excetuando referências gerais a independência e liberdade, há uma ausência marcante nos muros de Bagdá de comentários sobre a ocupação militar norte-americana.