Mulheres lançam ‘gritaço’ na Internet contra estupro

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Publicado sexta-feira, 27 de maio de 2016 as 14:31, por: cdb

Centenas de pessoas mudaram suas fotos no Facebook, aderindo ao avatar “Eu luto pelo fim da cultura do estupro”

Por Redação, com RBA – de São Paulo:

Após as notícias de que duas adolescentes foram vítimas de estupros coletivos, no Rio de Janeiro e no Piauí, representantes de movimentos sociais, movimentos feministas, artistas, parlamentares e entidades pró-direitos humanos lançaram uma campanha nas redes sociais contra a cultura do estupro. A ideia é que até o fim de junho, internautas publiquem vídeos nas redes sociais dizendo não à violência contra a mulher, usando as hashtags #EstuproNuncaMais e #‎PeloFimDaCulturaDoEstupro. Ainda ontem, em menos de 1h, a campanha havia alcançado o primeiro lugar entre as mais citadas no Twitter Brasil e terceiro lugar mundial.

Em Porto Alegre, mulheres se reuniram na Casa de Cultura Mario Quintana e realizaram um ato de repudio à cultura do estupro
Em Porto Alegre, mulheres se reuniram na Casa de Cultura Mario Quintana e realizaram um ato de repudio à cultura do estupro

Centenas de pessoas mudaram suas fotos no Facebook, aderindo ao avatar “Eu luto pelo fim da cultura do estupro”. A presidenta Dilma Rousseff foi uma delas. “Presto minha total solidariedade à jovem, menor de idade, estuprada por vários homens. Além de cometerem o crime, os agressores ainda divulgaram fotos e vídeos da vítima, desacordada, na internet. Uma barbárie”, disse no Twitter.

A atriz Letícia Sabatella também aderiu ao movimento e postou seu vídeo no Instagram e no Facebook.

Em Porto Alegre, mulheres se reuniram na Casa de Cultura Mario Quintana e realizaram um ato de repudio à cultura do estupro. Entre elas estava a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). “O estupro é parte de uma cultura perversa de dominação e violência contra as mulheres e meninas. Para enfrentar essa cultura, vamos ocupar as redes, as ruas, e repudiá-la com todas as nossas forças e unidade”, publicou no Facebook. “Aprendi com minha filha de 15 anos uma nova palavra: Sororidade. Ela significa uma especial solidariedade entre nós, mulheres. Diga não à cultura do estupro!”

A Polícia Civil do Rio de Janeiro tomou depoimento de uma jovem de 16 anos que foi drogada e estuprada por 33 homens. O crime foi denunciado após um vídeo com imagens da jovem desacordada e com órgãos genitais feridos e expostos ter sido postado na internet. Nas imagens, um homem diz que “uns 30 caras passaram por ela”. “Acordei com 33 caras em cima de mim. Só quero ir para a casa”, disse a jovem, ainda no hospital, de acordo com o jornal O Globo.

O pai da jovem, muito abalado, afirmou que a agressão ocorreu no Morro São João, na capital Fluminense: “Ela foi num baile, prenderam ela lá e fizeram essa covardia. Bagunçaram minha filha. Quase mataram ela. Estava gemendo de dor. Ficou tão traumatizada que só conseguia chorar”.

A polícia já pediu a prisão de quatro homens. Um deles é Lucas Perdomo Duarte Santos, de 20 anos, com quem a adolescente tinha um relacionamento, além de Marcelo Miranda da Cruz Correa, de 18 anos, Michel Brazil da Silva, de 20, e Raphael Assis Duarte Belo, de 41.

Em Bom Jesus, sul do Piauí, uma jovem de 17 anos foi violentada por cinco jovens, quatro deles menores de idade, na madrugada do último dia 20. Após uma briga com o namorado, a jovem teria ingerido bebida alcoólica e os suspeitos se aproveitaram da embriaguez para cometer o crime. Ela foi encontrada amarrada dentro de uma obra.

A ONU mulheres emitiu uma nota em que se solidariza com as duas jovens estupradas e pede ao poder público do Rio de Janeiro e do Piauí incorporem perspectiva de gênero na investigação, processo e julgamento dos casos. A organização também pede à sociedade brasileira “tolerância zero” a todas as formas de violência contra a mulher.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro também divulgou nota repudiando “o ato de barbárie” cometido contra a jovem carioca e se prontificou a oferecer apoio jurídico a ela e a família.

– Os atos repulsivos demonstram, lamentavelmente, a cultura machista que ainda existe, em pleno Século XXI – diz o texto. “Importante ressaltar que cada frase machista, cada piada sexista, cada propaganda que torna a mulher um objeto sexual devem ser combatidas diariamente, sob o risco de se tornarem potenciais incentivadoras de comportamentos perversos. E, igualmente, lembrar que, se esse crime chegou ao conhecimento público, tantos outros permanecem ocultos, sem repercussão. Precisamos lutar contra a violência em cada lar, em cada comunidade, em cada bairro.”

Repercussão

Jornais de todo o mundo noticiaram o caso do Rio de Janeiro. O The Times of India afirmou que o caso é a crise de “Nirbhaya” brasileira, em alusão ao estupro coletivo dentro de um ônibus que terminou com a morte da vítima, em 2012, em Nova Déli. A reportagem lembra que o crime ocorreu menos de dois meses antes do início das Olimpíadas. “Apesar dos crimes sexuais não serem incomuns nas favelas, onde gangues armadas operam e muitas vezes têm como alvo vítimas inocentes, a brutalidade deste caso chocou completamente o país”, diz o texto.

No Reino Unido, a BBC e o Metro deram destaque para o caso, dizendo que o crime alarmou o Brasil e que a população exige resposta do poder público. O El País, da Espanha, destacou que o Ministério Público recebeu pelo menos 800 denúncias após a divulgação do vídeo.