Mulher doa e recebe fígado em cirurgia de 24h em Pernambuco

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Publicado sexta-feira, 23 de maio de 2003 as 16:15, por: cdb

Uma paciente de Recife, submetida a uma técnica inovadora de transplantes, foi ao mesmo tempo doadora e receptora de um fígado numa cirurgia que durou 24 horas.

A operação, realizada pela segunda vez no Brasil, foi possível graças a uma parceria entre a equipe de transplante de fígado do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, da Universidade de Pernambuco (UPE), e o Hospital Jayme da Fonte.

Segundo o professor titular da UPE e chefe da equipe de transplante, Cláudio Lacerda, a operação havia sido realizada pela primeira vez em São Paulo.

– Chamado de transplante em dominó, trata-se de um procedimento pioneiro, que será publicado na revista científica Transplantation Proceeding – informou Lacerda nesta sexta-feira.

A cirurgia ocorreu no último domingo (18) e os beneficiados foram Cirleide Maria Alves de Lima e José Severo de Lima, ambos de 43 anos. Cirleine recebeu o fígado de um doador com morte cerebral e fez a doação a Severo de Lima, que tinha câncer e cirrose causada pelo vírus da hepatite B.

Cirleide tinha uma patologia que impossibilita o fígado de produzir uma determinada enzima, cuja falta provoca uma doença neurológica degenerativa.

– Os sintomas só se manifestam depois de uns 30 anos e a doença incapacita o indivíduo de se locomover, causando alterações no funcionamento da bexiga e dos intestinos – disse Lacerda.

Segundo o médico, com o transplante, a doença sofre uma interrupção imediata, mas a paciente terá de se submeter a fisioterapias e outros tratamentos específicos para conseguir uma recuperação total.

Lima, que só sobreviveria cerca de três meses se não fizesse o transplante e recebesse o fígado de Cirleide, deveria passar pelo menos dois anos na fila de espera por um doador. “Certamente ele não resistiria tanto tempo”, afirmou o cirurgião.

Lacerda esclareceu ainda que o fígado de Cirleide não tem outro problema, além da dificuldade de produção da enzima, e deve proporcionar uma sobrevida de qualidade a Lima.

Os dois estão fora da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), já se alimentam bem, mas não têm previsão de alta, segundo boletim médico. Toda a operação, envolvendo os dois pacientes, começou às 22h do último domingo (18) e terminou às 22h da última segunda-feira (19).

A equipe de transplante do cirurgião Cláudio Lacerda, que conta com o trabalho direto de 18 profissionais, já operou 42 pacientes em três anos.