MST ocupa usina Cambahyba e pede investigação sobre ameaças

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 5 de novembro de 2012 as 16:22, por: cdb

MST ocupa usina Cambahyba e pede investigação sobre ameaçasApós ocupar o parque industrial da Usina Cambahyba, o MST reivindicou nesta segunda-feira (5) à Polícia Federal e ao Ministério Público de Campos a abertura de averiguações sobre as ameaças (inclusive de morte) que seus integrantes estão sofrendo nos últimos dias na região. Usina tornou-se nacionalmente conhecida após ex-delegado do Dops dizer que corpos de desaparecidos políticos teriam sido incinerados em seus fornos.

Rodrigo Otávio

Enviar ! Imprimir !

Rio de Janeiro – Após ocupar o parque industrial da Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no Norte do estado do Rio de Janeiro, na sexta-feira (2), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reivindicou nesta segunda-feira (5) à Polícia Federal e ao Ministério Público de Campos a abertura de averiguações contra as ameaças que seus integrantes estão sofrendo nos últimos dias na região.

“Tem um pessoal lá, principalmente um que se intitula como capataz, um dos jagunços da Cambahyba, que tem feito ameaças com as famílias e pessoas que estão diretamente envolvidas no acampamento. São ameaças diretas, sérias, contra pessoas que vão ao acampamento e são interpeladas na rua. Conversas do tipo ‘não tenho medo de morrer, e também não tenho medo de matar’”, diz um integrante do MST sobre a atuação de Carlinhos do Ouro, “uma pessoa conhecida na região, que tem um currículo conhecido não como uma boa pessoa, com vários atos de violência contra trabalhadores”, completa.

O MST pede averiguação dos fatos relatados, que sejam feitas ações de busca e apreensão na residência do acusado e maior efetivo policial para proteger as cerca de 120 famílias que estão acampadas. Segundo outro representante do MST, “as ameaças começaram antes de sexta-feira. Nós estávamos fazendo trabalho de preparação de famílias que participariam da ocupação, reuniões, e as pessoas já falavam das ameaças”. Ainda de acordo com o MST, após a ida ao 8º batalhão da Polícia Militar de Campos, “o major responsável pelo regimento se comprometeu a colocar alguma viatura da polícia fazendo rondas pela região pelo menos quatro ou cinco vezes por dia”. Um integrante dos trabalhadores rurais acrescenta que na segunda-feira a tarde já havia sido feita uma ronda.

O MST ocupou a usina Cambahyba no dia 2, dia de Finados, como uma homenagem aos militantes contra a ditadura civil militar que teriam tido seus corpos cremados nos fornos da usina. A usina foi um conjunto de sete fazendas em cerca de 3500 mil hectares que pertenceu ao ex- vice-governador do Rio de Janeiro entre 1967 e 1971 Heli Ribeiro Gomes, e foi grande produtora de açúcar até os anos 1970.

Em 1998 o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) considerou as terras improdutivas e aptas para a reforma agrária. De lá para cá várias manobras judiciais patrocinadas pelos herdeiros de Heli impedem a desapropriação e a reforma agrária reivindicada pelo MST. Em junho de 2012 a Justiça Federal de Campos deu nova decisão favorável à desapropriação e reassentamento de famílias pelo Incra.

Antes, porém, em maio de 2012, a usina tornou-se nacionalmente conhecida após o livro Memórias de uma Guerra Suja, do ex-delegado do Dops Claudio Guerra, relatar como corpos de desaparecidos políticos teriam sido incinerados ali.

Além da segurança física de seus integrantes, o MST prepara-se para novas tentativas judiciais de atraso na desapropriação das terras pelo lado dos usineiros. “Em outras ocasiões os proprietários entraram com processo contestando o laudo de improdutividade e dizendo que a área era produtiva. Se você for lá, dá vontade até de rir disso. Aquilo lá está caindo aos pedaços, é só capim, e os caras contestando o laudo de improdutividade na justiça”, afirma um integrante do MST em Campos.

“O Incra iniciou o processo de mediação da área, está atuando, devagar como sempre, mas iniciou o processo. Então a ocupação é, de fato, para a gente pressionar o Incra para agilizar esse processo e realizar o assentamento definitivo”, completa.