MST busca reconstruir imagem junto ao público após tomar um tiro no pé

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado domingo, 11 de outubro de 2009 as 16:03, por: cdb

Custou caro ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) cada um dos pés de laranja arrancados por um militante, na fazenda grilada pela Cutrale, uma cooperativa de empresários responsável pela invasão de uma extensa área de terra, altamente cultivável, entre os municípios de Iaras e Lençóis Paulista, no Oeste do Estado, para o plantio indiscriminado de laranjais. A maior parte da produção de laranjas, no local, é voltada para exportação.

O movimento social, porém, pecou por arrancar as plantas, não por ocupar a terra. Um experiente trabalho de comunicação social, desenvolvido por instituições ligadas aos empresários e ao Governo do Estado de São Paulo, no entanto, apresentou à Opinião Pública uma versão altamente negativa aos trabalhadores sem-terra que, de forma legítima, assentaram-se em um terreno de propriedade da União, sobre o qual reivindicam, há quase uma década, a reforma agrária.

As imagens do trator atropelando os pés de laranja, no entanto, extrapolaram as fronteiras da pendenga entre classes sociais no interior paulista e ganharam dimensão nacional, no bojo da disputa intestina que ocorre em âmbito parlamentar. Foi um prato cheio para a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) e a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que deseja montar, como palanque para o discurso da direita, às vésperas da sucessão presidencial. Os ativistas do MST que tiveram a “brilhante” idéia de “limpar a terra” para o plantio de milho, arroz, feijão etc, com certeza, não imaginaram que um helicóptero da Polícia Militar, comandada por um governo estadual de oposição ao movimento, iria fazer o carnaval que aprontou junto aos segmentos da imprensa, estes ligados umbilicalmente ao empresariado nacional mais retrógrado e predador. Foram naifes demais.

O alto preço da falha de comunicação começou a ser pago horas após o noticiário da mídia burguesa explodir nos canais de TV, rádio e jornais impressos do país, sem contar a internet. As cerca de 250 famílias, algo em torno de mil pessoas – trabalhadores assentados em barracas de plástico, à espera de um lote de terra para plantar – foram desalojadas das terras pela mesma PM que flagrou o tratorista dedicado a produzir o maior estrago já causado à imagem do movimento social nos últimos anos.

Nem o quebra-quebra das mulheres da Via Campesina no horto florestal da Aracruz, há três anos, no Rio Grande do Sul, causou tanto alvoroço. O calor do noticiário foi tão intenso que levou autoridades federais, geralmente muito equilibradas em relação ao MST, a proferir declarações que causaram estragos tão grandes quanto a destruição do laranjal. Novamente, a mídia sustentada pelas empresas transnacionais fez reluzir o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no momento em que ele classifica o ato como “vandalismo”, do ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e do presidente do Incra, Rolf Hackbart, que classificaram a ação de “grotesca” e “injustificável”.

Ciente do movimento que grassava pela mídia incendiária de direita, veio do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Jorge Armando Félix, o contraponto necessário para que a campanha de demonização do MST parasse exatamente onde estava, sem avançar mais na caça aos sem-terra. Ele minimizou a ocupação da fazenda e alertou para os alto decibéis aplicados à repercussão do caso.

A partir daí, o comando nacional do MST, ciente do estrago produzido pelo tiro no pé, passou a agir de forma inequívoca para o esclarecimento, ainda que tardio, dos fatos. Com uma sucessão de notas, distribuídas aos meios de comunicação, tentou diminuir a fervura do noticiário. É evidente que os mesmos veículos a demonizar os sem-terra seriam aqueles que sequer conhecimento tomariam das mal traçadas linhas do MST, acerca dos acontecimentos. Mas antes uma nota, publicada no rodapé da página, do que nada.

Em jornalismo, fatos e versões se entrelaçam em um bailado atroz que termina, geralmente, em prejuízo grande para um deles: Os fatos, como de costume, sempre perdem para a maquiagem das versões. Até que eles se apresentem, na íntegra, em sua verdadeira dimensão, elas já terão conquistado os corações e mentes dos tais formadores de opinião e, com isso, cristalizado o voto de um tanto de indecisos, em uma campanha política. Sim, pois tudo o que puder ser usado contra o adversário, na corrida às urnas, o será em sua eficácia máxima. Assim, cada palavra dita, cada planta quebrada e cada oportunidade perdida irão municiar a artilharia da oposição à candidatura apoiada pelo MST.

A sensatez, no entanto, parece que chegou depressa às esferas de decisão do movimento. Ainda que amargurados, deixaram pacificamente as terras a que têm direito no interior paulista. Aprenderam que, algumas vezes, é preciso recuar para novamente seguir adiante na luta por seus direitos. Um dos integrantes da coordenação nacional do movimento, Gilmar Mauro afirmou, neste sábado, que o movimento não tem medo de que suas contas sejam investigadas pela CPI, o que transferiu segurança àqueles que apostam na correção moral do MST. E, como neste domingo o noticiário nacional voltou-se, junto com a atenção dos brasileiros, para as eliminatórias da Copa, o assunto passa a ser apenas mais um pano de fundo para a realidade multifacetária desse país.