Morte de médica no Rio está mal explicada, segundo a polícia

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Publicado quarta-feira, 29 de junho de 2016 as 13:04, por: cdb

São Muitos os elementos que levaram um grupo de jornalistas do Rio a duvidar da linha de investigação da polícia civil que tenta esclarecer o crime e localizar os responsáveis pelos tiros que mataram a médica Gisele Palhares Gouvêa, 34 anos, ocorrido na noite do último sábado no acesso à Linha Vermelha, na Via Dutra, Baixada Fluminense

Por Redação, com Conexão Jornalismo – do Rio de Janeiro:

Funcionária da Prefeitura de Nova Iguaçu, ela havia acabado de participar de uma inauguração de um posto de atendimento a deficientes, quando foi alvejada na cabeça. A morte ocorreria minutos depois, antes de receber socorro médico.

As dúvidas, diversas, residem principalmente no fato dos criminosos não terem nem sequer se aproximado da vítima após os disparos, o que seria comum caso pretendessem de fato roubá-la ou levar seu automóvel. Após atirarem quatro vezes contra o veículo importado da medica, uma Range Rover, eles deram meia volta e fugiram. A polícia tenta localizar as câmeras que possam indicar o caminho por onde os criminosos fugiram.

A polícia civil tenta esclarecer o crime e localizar os responsáveis pelos tiros que mataram a médica Gisele Palhares Gouvêa, 34 anos
A polícia civil tenta esclarecer o crime e localizar os responsáveis pelos tiros que mataram a médica Gisele Palhares Gouvêa, 34 anos

A mulher, segundo consta no inquérito que apura o crime, havia sacado R$ 3 mil para comprar um celular. A versão é outra fonte de dúvida. Não é comum alguém sacar dinheiro, em espécie, para comprar um aparelho celular. Em geral, até para evitar o roubo ou assalto, a pessoa recorre a compras via cartão, débito ou crédito. Por que ela sacaria o dinheiro?

Esta versão ainda aponta para um dado no mínimo curioso. Gisele teria “escondido” o dinheiro na sua roupa íntima. Imagina-se que para se precaver de um possível assalto? Por que ela achava que poderia ser assaltada já que estava em um automóvel? E por que esconder em uma peça íntima? Em reportagem desta quarta-feira, assinada pelo jornalista investigativo Antonio Werneck, O Globo redefine o lugar de guarda do dinheiro, estaria no bolso da calça. Embora mais plausível, a versão ainda mantém uma dúvida no ar: e por que não estava em uma bolsa ou carteira? Por que manter R$ 3 mil junto ao corpo? Se estavam em notas de R$ 100 eram 30 cédulas. Desconfortável, não?

A questão do dinheiro encontra respaldo em outro elemento que brota da experiência dos jornalistas. O ambiente político é um espaço onde seus atores, quando mal intencionados, em geral recorrem a dinheiro em espécie para evitar problemas com a Receita Federal e impedir o rastreamento do dinheiro, o que é mais uma especulação. Tal iniciativa é comum quando se carrega maços de dinheiro.

É possível que a raiz das suspeitas esteja no fato do prefeito de Nova Iguaçu, Nelson Bornier, ser um político que em alguns momentos esteve às voltas com problemas com a Justiça. Em dezembro último, por exemplo, recebeu a visita na sua casa, uma cobertura na Barra da Tijuca, da Polícia Federal. A busca e apreensão ocorreu como parte da Operação Catilinária. Bornier é um importante aliado do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ele já teve cinco mandatos como deputado federal.

Vocacionada para a Medicina e política

Gisele Palhares era formada pela Universidade de Nova Iguaçu. Foi seu marido, o cirurgião plástico Renato Palhares, que a estimulou a se tornar médica. Devotada na profissão, ela era também uma importante aliada política e não escondia isso em comentários postados na sua página do Facebook. Fazia críticas aos detratores dos políticos locais e atacava opositores.

Uma conhecedora do ambiente político e social da Baixada Fluminense comentou:

– Tentativa de assalto naquele curvão ali na entrada da LV? Quem viu? Roubaram o que?

Outra jornalista comentou:

– De onde tiraram a lógica do assalto? O carro dela é um dos menos visados pela bandidagem.

O comportamento atuante da médica nas redes sociais também foi lembrado:

– Tomava partido de político, se metia em picuinha politica em Vila de Cava, Tingua… e postava isso no próprio face, pra todo mundo ver. Comemorava inaugurações de escola… aliás, tinha acabado de sair de um palanque quando foi alvejada…

Nas redes sociais o viúvo, Renato Palhares, posta imagens de um casal feliz em viagens e no ambiente familiar. Ele anunciou o desejo de criar o movimento “Viva Gisele” para perpetuar o nome da médica e lutar contra a violência. Perguntado sobre como estava se sentindo, logo após o enterro, respondeu:

-Ela já foi. Agora a gente é que deve tomar cuidado.

O marido não acredita que a mulher tenha sido vítima de uma execução, a polícia já passa a considerar esta hipótese. E a razão apresentada por ele é das mais cândidas:

– Ela era muito querida. Não tinha inimigos.