Morte de Jorge Amado levanta debate sobre Academia Brasileira de Letras

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Publicado quinta-feira, 23 de agosto de 2001 as 14:58, por: cdb

Além de deixar um vazio imenso na literatura nacional, a morte de Jorge Amado acabou trazendo à tona uma questão pouco discutida publicamente, mas que incomodava muita gente do meio literário: a credibilidade da centenária Academia Brasileira de Letras enquanto instituição destinada a agrupar os grandes vultos da literatura do país. O processo aberto em torno do preenchimento da vaga da cadeira 23, deixada pelo escritor baiano, abriu precedentes para uma discussão mais ampla em torno dos méritos e deméritos dos candidatos e dos próprios acadêmicos.
O pivô da polêmica foi a indicação da escritora paulista Zélia Gattai, viúva de Amado, como candidata à sua vaga. Apesar de sua confirmação como candidata ter afastado da disputa – e pela virtude da renúncia – duas figuras não exatamente benquistas no meio acadêmico – o ´mago´ Paulo Coelho e o comediante Jô Soares – , ela tem seus méritos literários questionados por não poucos homens das letras do país. Para muitos, trata-se de uma escritora menor que deve sua fama unicamente ao fato de ter sido mulher de Jorge Amado – que, diga-se de passagem, também estava longe de ser unanimidade, apesar do prestígio internacional e dos inúmeros prêmios e comendas que recebera em vida.

Em que pesem ou não os méritos de Zélia, sabe-se que ela conta com pelo menos 25 votos favoráveis ao seu ingresso na ABL entre os 39 acadêmicos, o que a aponta como virtual vencedora do pleito. Até aí tudo bem. Com o Brasil vivendo ainda sob a atmosfera emotiva da perda de Jorge Amado, a candidatura da autora de Anarquista Graças a Deus tem amplo favorecimento entre a opinião pública. ´É muito melhor que Paulo Coelho e Jô Soares´, diz em coro a intelectualidade brasileira.

Anticandidatura – Mas quem apareceu de vilão na história foi o escritor e jornalista sergipano Joel Silveira, que na última semana ousou entrar na disputa com Zélia e, ainda por cima, diminuí-la como escritora publicamente, relegando-a a uma quinta categoria – daí sua candidatura à cadeira, que tem por patrono José de Alencar e como primeiro ocupante o próprio fundador da ABL, Machado de Assis, ser considerada uma anticandidatura.

Ao chutar o pau da barraca, Silveira derrubou o circo onde se empoleiravam outras figuras questionáveis das letras brasileiras, como o jornalista Roberto Marinho, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy e o ex-presidente José Sarney. Desencadeou-se, assim, um intenso processo de lavagem de fardões sujos entre escritores de todos os matizes, intelectuais e simpatizantes das letras do Brasil inteiro.

Apesar de seu ato ter sido considerado deselegante por muitos, Silveira conta com defensores no meio literário baiano. Um deles é o também escritor e jornalista Ruy Espinheira Filho. ´Acho que Joel tem todo o direito de se candidatar, é um escritor e jornalista extremamente brilhante, apesar de não ser muito badalado. Mas a Academia nunca primou pelo fato de eleger os melhores. Eu gostaria que um baiano ocupasse a vaga de Jorge, mas no momento estamos sem candidato. Então, se eu fosse eleitor eu votaria em Joel Silveira, não porque acho que Zélia não merecesse vencer´, opina.

Para ele, Silveira sabe que não vai ganhar, ´mas pelo menos levanta esta poeira´. ´O Brasil é um país muito conformista, nos conformamos para fazer agrados. Não pode ser assim, não. Ficamos sem contestar as idéias´, questiona Espinheira.

Já o escritor Aleilton Fonseca, professor de Literatura da Universidade de Feira de Santana, é partidário de Zélia Gattai. ´O que sinto na sociedade brasileira que acompanha literatura é que o mérito seria para Zélia. Pela própria trajetória de escritora, pela sua literatura, é uma candidata que me parece mais credenciada´, diz.

Mais reticente e dizendo-se anti-acadêmica por excelência, a escritora baiana residente no Rio de Janeiro Sonia Coutinho – ganhadora de dois prêmios Jabuti e autora do recente livro de contos Mil Olhos de Uma Rosa – diz-se favorável à eleição de Zélia mais como uma homenagem a Jor