Morrem mais crianças no Rio do que na Palestina, diz livro

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Publicado sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003 as 20:03, por: cdb

O número de crianças e adolescentes mortos por armas de fogo entre 1987 e 2001 foi oito vezes maior no município do Rio de Janeiro do que na região da Palestina, conforme verificou estudo do Instituto Superior dos Estudos da Religião (Iser).

A guerra entre judeus e palestinos fez 467 vítimas menores de idade nesse período, e a guerra do tráfico, no Rio, 3.937. O dado está no livro Crianças do Tráfico, do antropólogo inglês Luke Dowdney, do Iser, lançado nesta sexta-feira.

Dowdney traçou uma comparação entre os jovens recrutados para trabalhar nos exércitos de países em guerra – como Angola, Moçambique, Congo, Uzbequistão, Colômbia e Filipinas – com crianças e adolescentes que vivem em favelas do Rio e trabalham para os traficantes de drogas. Hoje, ele calcula que, entre 5 e 6 mil menores, andam armados nas comunidades carentes da cidade.

O pesquisador concluiu que, em ambos os casos, os jovens ingressam, em média, aos 9 anos, por falta de alternativas. Aos 14, passam a portar armamento. Eles estão inseridos num modelo parecido de hierarquia e têm funções definidas, como carregar armas e munições (no caso do Rio, drogas também) e servir de olheiros.

E, no Rio ou em países em guerra, trata-se de matar ou morrer. “A diferença é que, em tese, numa guerra civil, quando se conquista o objetivo, a guerra acaba, e as crianças são liberadas. No Rio, o conflito não termina nunca. O objetivo é econômico, é vender a droga”, explica Dowdney, que passou um ano visitando diariamente comunidades carentes do Rio.

Vinte e cinco jovens que participam do tráfico foram entrevistados, num total de 30 horas de gravações. “A tragédia foi ouvir de garotos de 11, 12 anos que eles sabiam que não estariam vivos daqui a 3 anos”, disse o pesquisador, que teve o apoio da Fundação Ford e da seção sueca da organização Save the Children.

Dowdney rechaça a idéia de que o Rio vive uma guerra civil ou que os traficantes representem um poder paralelo. “Aqui, não há domínio de território. Se o Estado quiser entrar na favela, entra.” Ele defende que o caso da cidade seja de “violência armada organizada”. E acredita que o fenômeno esteja ocorrendo em outros países da América Latina e também na África e na Ásia. Um estudo em dez países dessas regiões será iniciado em breve.