Morre o escritor Manuel Vázquez Montalbán

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Publicado sábado, 18 de outubro de 2003 as 14:56, por: cdb

O famoso escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, criador do mítico detetive Pepe Carvalho, morreu repentinamente no início da madrugada deste sábado aos 64 anos de idade, em uma sala de espera do aeroporto de Bangcoc, onde fazia uma escala entre Austrália e Espanha, de volta de uma série de conferências literárias.

O escritor catalão, que havia sido submetido há nove anos à implantação de quatro pontes de safena, morreu de um infarto fulminante, de acordo com as primeiras conclusões médicas, informaram emissoras de rádio espanholas.

A embaixada da Espanha em Bangcoc, à espera das conclusões da autópsia, limitou-se a confirmar que Vázquez Montalbán havia “morrido de repente, indo de um avião para outro”.

O corpo do escritor será repatriado, segundo a mesma fonte. Ele vinha de Sydney e tinha que embarcar em um vôo de conexão da companhia Thai Airways International para Madri, mas faleceu no aeroporto internacional de Bangcoc.

Vázquez Montalbán, escritor, jornalista e comentarista prolífico, criador do personagem fictício do detetive Pepe Carvalho, tinha feito um ciclo de conferências dedicadas à literatura policial e ao papel dos escritores na construção democrática, nas universidades da Nova Zelândia e Austrália.

Fiel durante toda sua vida ao comunismo catalão e ao antifascismo, Montalbán era um grande analista político e colaborava com o jornal El País, onde destilava semanalmente, com um humor devastador, críticas acerbas aos conservadores no poder em Madri. Seu mítico Pepe Carvalho “nasceu” em 1971 no livro “Eu Matei Kennedy”, como um agente secreto e foi mudando de perfil progressivamente até tornar-se um detetive particular, uma espécie de espelho das transformações sociais e políticas da Espanha do fim do franquismo.

Graças a esse personagem, Vázquez Montalbán fez uma discreta oposição e crítica ao governo de Francisco Franco. Suas idéias revolucionárias o fizeram passar um ano e meio na prisão, foi privado de passaporte e também perdeu a autorização de trabalhar como jornalista.

Curiosamente, um de seus livros policiais, traduzidos para 24 idiomas, transcorria em Bangcoc (“Os pássaros de Bangcoc”), à qual Pepe Carvalho definiu como “uma cidade que está apodrecendo”.

Grande viajante e observador da história contemporânea, evocou em suas obras personagens como o ditador espanhol Francisco Franco (“Autobiografia do general Franco”), o dominicano Rafael Trujillo (“Galíndez”), ou também as figuras do Papa e Fidel Castro (“E Deus entrou em Havana”), assim como o líder zapatista Marcos, a quem entrevistou em seu reduto mexicano em 1997 (“Marcos, o Senhor dos Espelhos”).

Vázquez Montalbán, ou Manolo Vázquez como era conhecido no vasto círculo de amigos e colegas, havia entregue a seu editor o manuscrito de seu último livro, “Milênio”, que tem cerca de mil páginas e será publicado no final de janeiro e início de março em dois volumes, informou Carlos Revés, seu editor no Grupo Planeta.

Este livro é protagonizado por um Pepe Carvalho mais viajante que nunca, enfrentando o terrorismo em Bali e diante dos grandes conflitos internacionais, seja no Iraque ou nos territórios palestinos.

Como poeta, ensaista, novelista e dramaturgo, Vázquez Montalbán recebeu muitos prêmios literários, entre eles o Prêmio Planeta, em 1979, por “Os Mares do Sul”. Também ganhou o Prix international de littérature policière na França e o Ennio Flaiano na Itália.

Vázquez Montalbán era casado e tinha um filho.