Moral nem sempre ética

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 26 de setembro de 2011 as 12:54, por: cdb

Nos últimos dias temos assistido a um suceder-sede notícias de corrupção na esfera pública. Esta e outras questões apontam paraa urgência da ética em nossa sociedade brasileira. De fato, a ética é uma formade ser no mundo por meio da qual o sujeito concreto se sente comprometido com adignidade do ser humano e com a justiça social. Leonardo Boff define a éticacomo sendo tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente em que vivemos paraque seja uma moradia saudável. Assim sendo, a ética não é outra coisa senãocuidar para que a Terra seja sempre uma morada saudável. É cuidar das pessoasde modo que elas, sentindo-se bem, possam, de fato, comprometer-se com afelicidade das demais. Portanto, cuidado e ética são sinônimos.

Porém, não basta falar de ética. É indispensávelque se desenvolva uma prática que torne eticamente correto o comportamentomoral das pessoas em sociedade. Diante das notícias de corrupção na esferapública ficamos escandalizados e decepcionados. Mas seria interessante nosperguntarmos, com toda sinceridade, se a corrupção não está impregnada nacultura e na cabeça de todos nós. É muito comum entre nós o conhecido “jeitinhobrasileiro” de resolver os problemas. Estamos acostumados a práticas como”pagar por fora, pagar uma cerveja, pagar um guaraná, dar uma gorjeta”, etc.Reclamamos da corrupção dos políticos, mas, infelizmente, a “cultura dacorrupção” está embutida em nossas cabeças. E quando é para “levar vantagem emtudo”, não hesitamos em lançar mão das formas mais simples e comuns decorrupção, como, por exemplo, furar uma fila, mesmo que disfarçadamente.

Não devemos apenas nos limitar a falar decomportamento humano moral. Não podemos somente registrar ou descrever ocomportamento moral dos seres humanos, mas procurar oferecer racionalidade eobjetividade ao comportamento. Isso é ética e é isso que está faltando ao mundode hoje. Falta-nos a coragem de parar para refletir sobre essas coisas;falta-nos sensibilidade e racionalidade para entendermos que o corrupto nãochega sozinho à esfera pública. Ele é levado por eleitores, por boa partedaqueles mesmos que, hipocritamente, ficam escandalizados quando escutam onoticiário sobre a corrupção.

Mas para que possamos refletir e agir éindispensável que não confundamos ética com moral. Esta última compreendenormas e regras de ação e fatos a elas relacionados. A moral seria um conjuntode valores, princípios e prescrições que as pessoas de um determinado grupohumano consideram válidos, bem como os atos reais deles decorrentes. A moral énormalmente determinada a partir da cultura, da filosofia e da ideologiadominante. Na moral as pessoas se atêm às normas fixas que lhes possamassegurar que elas estão certas. Porém, na ética as pessoas escolhem o quefazer, a partir da consciência de justiça e de dignidade humana que possuem.Bauman, filósofo e sociólogo polonês radicado na Inglaterra, diz que a escolhanão é entre seguir as normas e transgredi-las, mas entre diferentes conjuntosde normas e o que de fato é melhor para as pessoas concretas. O que é moral nemsempre é o melhor para seres humanos reais.

Assim sendo uma ação é “imoral” quando não segueas regras e as normas estabelecidas pela moral. Mas, muitas vezes, paracultivar o cuidado para com as pessoas, será indispensável romper comdeterminados conjuntos de normas e com certas autoridades que as vigiam. Omoralista, diz Boff, apegado a valores da tradição, termina se fechando sobre opróprio sistema de valores. Já o ético é aberto a valores que ultrapassamaqueles do sistema tradicional ou de uma cultura determinada. O moralista seescandaliza com a corrupção e se decepciona com a política. A pessoa ética agecorretamente, pensando nos outros e no bem-comum. Por isso, na hora de votar,usa a razão e a inteligência e não vota em qualquer um e de qualquer jeito.

Por essa razão, precisamos ter plena consciência econvicção de que uma ação pode, ao mesmo tempo, ser considerada imoral, maseticamente correta. A moral que pune a mãe que pegou e não pagou um pão napadaria para matar a fome da filha, e deixa impune o ladrão de colarinho brancoque desviou milhões dos cofres públicos, não pode ser uma moral ética. A moralque algema o ladrão de galinha e considera absurdo que o corrupto de colarinhobranco possa ser algemado, não é de forma alguma uma moral ética. Por acaso osujeito que desviou milhões dos cofres públicos, especialmente da saúde e daeducação, não oferece risco para a segurança pública?

Se quisermos ser éticos, e contribuirmos para queexista ética no mundo, devemos estar preparados para transgredir certo tipo demoral, fazendo prevalecer a ética. Melhor dizendo, precisamos ter a coragem delutar e de nos comportarmos de forma tal que as nossas normas morais coincidamcom a ética.