Moradores de áreas que serão alagadas por Belo Monte aguardam indenização para trocar palafitas por casas de alvenaria

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Publicado quarta-feira, 18 de abril de 2012 as 15:58, por: cdb

Pedro Peduzzi
Enviado Especial da Agência Brasil

Altamira (PA) – Parte dos R$ 3,2 bilhões previstos para bancar as ações de minimização dos impactos socioambientais da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte será dedicada ao assentamento de moradores que vivem em áreas que vão ser alagadas com a barragem do Rio Xingu. A expectativa é que essas famílias troquem as moradias precárias, erguidas sobre palafitas, por casas de alvenaria, com saneamento. A outra opção é receber indenizações em dinheiro ou na forma de crédito.

A Agência Brasil conversou com alguns desses moradores. Boa parte já foi cadastrada pela empresa Norte Energia, responsável pela construção e operação da usina. “Eles [Norte Energia] têm boas promessas”, disse o agricultor Francisco Roque de Sousa, de 52 anos. “Disseram que vão construir uma casa para a gente e ainda levarão a nossa casa [de madeira, suspensa em um brejo no Igarapé Ambé] para o lugar que escolhermos, a uma distância de até 150 quilômetros”, acrescentou.

O agricultou disse que está “confiante” de que fará um bom negócio. “Soubemos que, na zona rural, eles pagam bem pelas terras, principalmente na região do Sítio Pimentel”. O pagamento de indenizações às famílias que serão removidas tem provocado a alta dos preços de terrenos e sítios em Altamira. “Tem lote que custava R$ 30 mil e, agora, pedem R$ 60 mil. Perderam a noção da coisa”.

A índia Solange Maria Curuaia, de 48 anos, também acredita que fará um bom negócio caso consiga trocar a palafita onde mora, em Ambé, por uma casa na cidade. “Minha preocupação maior é não receber a casa, porque não quero voltar para a aldeia nem ser mandada por cacique”.

Segundo ela, a Norte Energia prometeu, além de uma casa para ela, outra para a irmã Mônica Curuaia da Silva, com quem divide o barraco sobre palafita. “Disseram que cada um da família terá direito a uma casa de alvenaria. Vai ser bom porque estamos morando em um lugar perigoso por causa da proximidade com a estrada e pelo risco de enchente no período de chuva”. A casa das irmãs índias já foi alagada algumas vezes.

Morador do Igarapé Panelas, o oleiro Osvaldo Bispo dos Santos, de 61 anos, já foi cadastrado e recebeu dos representantes da Norte Energia a garantia de que terá o que preferir: indenização, casa ou crédito. “Optei pela indenização e, agora, estou aguardando a proposta. Só saio de lá se o valor for suficiente para construir minha casa, do meu jeito, e com a minha olaria para fabricar meus tijolos.” Com a olaria, Osvaldo consegue gerar uma renda entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, que divide com dois trabalhadores.

Marconi Ribeiro de Sousa, 38, também é oleiro no Igarapé Panelas, mas não sabe se conseguirá manter a atividade depois da remoção. “Não existe outra região para montar olaria, por aqui”. Ele prefe ser indenizado e quer receber cerca de R$ 200 mil. O valor é justificado pelo colega Ananias Brasilino Pereira, de 45 anos. “A gente calcula esse valor levando em consideração o tempo de trabalho que teríamos pela frente”. Eles dizem que tiram, atualmente, R$3 mil por mês. “A Norte Energia propôs nos capacitar também para outras áreas”, acrescentou.

Dono de uma peixaria “que também é casa e balneário”, na qual mora há 17 anos, Remi Antônio Fistarol, de 62 anos, disse que já receu a visita “de um bocado de gente da empresa” para avaliar a propriedade que está no nome do filho. “Quero indenização, mas que leve em conta que esse é o meu sustento”. Ele diz que, no verão, consegue tirar entre R$ 10 mil e R$ 12 mil reais, dinheiro que sustenta quatro pessoas. “Com a indenização, pretendo montar um outro negócio”, disse sem ainda ter ideia de qual será a nova empreitada.

A Agência Brasil solicitou, às 14h30 de hoje (18), informações à Norte Energia sobre a previsão de gastos para pagamento de indenizações, reassentamentos e crédito para os moradores residentes nas áreas que serão inundadas, além de informações adicionais sobre o andamento desses processos, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem, às 18h45.

Edição: Vinicius Doria