Militares e política na democracia são assunto de livro

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Publicado quarta-feira, 1 de agosto de 2001 as 01:18, por: cdb

Uma pesquisa recente divulgada pela revista britânica “The Economist” afirmou que apenas 30% dos brasileiros estavam satisfeitos com a democracia, embora só 18% dissessem que seria preferível a volta a um governo autoritário, como a ditadura militar que governou nosso país entre 1964 e 1985. E as Forças Armadas, como se comportam nesta nova – e para lá de imperfeita – ordem democrática?

Os professores universitários Celso Castro e Maria Celina D’Araújo, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas, procuram responder a essa pergunta em seu recém-lançado livro “Militares e política na Nova República” (Editora FGV), no qual entrevistam ministros militares e comandantes dos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

No balanço do período, os militares se mantiveram firmes em seus papéis constitucionais, não intervindo em crises políticas como impeachment de Collor. Mas a sociedade democrática ainda não adquiriu o hábito de debater questões militares e de segurança nacional, como o controle do serviço de informações. Confira a entrevista que Celso Castro e Maria Celina D’Araújo concederam à StarMedia, sobre os temas tratados no livro.

StarMedia – No governo Sarney, a presença dos militares na política ainda foi intensa, inclusive com a invasão da usina de Volta Redonda e a morte de três operários. Até que ponto essa influência fortaleceu o chamado lobby militar na Constituinte?
Celso Castro e Maria Celina D’Araújo- O período do governo Sarney é diferente dos que se seguiram, em relação à influência militar na política. Ainda havia, nessa época, significativa influência militar, inclusive com o temor de que pudesse ocorrer um retrocesso na transição política. Sem dúvida, isso favoreceu o lobby militar na Constituinte, que foi muito bem sucedido.

StarMedia – Nas entrevistas, nota-se que os ministros militares tinham posições ambíguas quanto ao presidente Collor, apoiando seu projeto modernizador e criticando sua atitude com as Forças Armadas e seu envolvimento com a corrupção. Como os militares reagiram às medidas polêmicas de Collor, como o confisco da poupança e as privatizações?
Celso Castro e Maria Celina D’Araújo- – Nossa impressão, a partir das entrevistas, é que os a maioria dos militares sempre teve uma posição de alguma desconfiança em relação a Collor, à exceção dos seus ministros. Medidas como o confisco da poupança e as privatizações certamente desagradaram a muitos militares – bem como a muitos civis. No entanto, atitudes de Collor vistas como desrespeitosas (por exemplo, o episódio em que Collor jogou uma pá de cal no “buraco do Cachimbo”) e as denúncias crescentes de corrupção no governo foram decisivas para que prevalecesse uma imagem negativa a respeito do presidente.

StarMedia – A criação do ministério da Defesa parece ter ocorrido mais por um ato de vontade do presidente Fernando Henrique Cardoso do que pelo desejo dos militares. Que condições políticas permitiram a FHC implantar o ministério sem maiores resistências?
Celso Castro e Maria Celina D’Araújo- A partir da leitura do livro fica claro que a maior dificuldade para se criar o Ministério da Defesa veio de divergências entre os próprios militares do que de uma suposta posição comum contrária à criação do ministério. Cada uma das forças armadas tinha seu próprio projeto, e havia também o receio, principalmente de parte da Marinha, de que o novo ministério ficasse sob domínio do Exército. Quando FHC tomou a decisão política de finalmente criar o ministério, não houve resistências.

StarMedia – A questão do serviço de informações (ou inteligência) continua a apresentar problemas, como a participação de ex-torturadores na Abin e o envolvimento de agentes com grampos. É possível construir a curto prazo no Brasil um serviço de informações democrático, sob fiscalização do Congresso, ou o peso da cultura do SNI ainda predomina?
Celso Castro e Maria Celina D’Araújo – Sem dúvida