MG: vilarejo que restou lembra cidade fantasma

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Publicado segunda-feira, 9 de novembro de 2015 as 10:22, por: cdb

Por Redação, com ABr – de Mariana, MG:

Em meio ao cenário de muita lama, barro e destruição, poucas ruas e casas do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), resistiram o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco na última quinta-feira, o que restou lembra uma cidade fantasma. Segundo a prefeitura de Mariana, até o momento, o número de desaparecidos caiu para 25. Já o total de desabrigados chegou a 601 que estão alojados em hotéis da região histórica de Minas Gerais. Duas mortes foram confirmadas pelas autoridades.

É possível escutar, em meio à desolação, apenas o canto dos pássaros e o barulho das máquinas que abrem acesso para as equipes de resgate.

Na parte alta da comunidade, uma das poucas casas com movimentação é a de Edirleia Marques, 38 anos, e Marcílio Ferreira, 41 anos. A dona de casa e o operador de máquinas moravam na região com os dois filhos, de 10 e 2 anos, e tem voltado ao local desde a última sexta-feira para auxiliar bombeiros e homens da Defesa Civil e do Exército nas buscas.

Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais (Corpo de Bombeiros/MG
Área afetada pelo rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana, em Minas Gerais (Corpo de Bombeiros/MG

A antiga moradia do casal agora funciona como um ponto de apoio para as equipes que trabalham em Bento Rodrigues. Numa rápida volta pela residência, é possível ver um velotrol e um cavalinho de madeira do filho caçula. Na sala, o sofá e a televisão permanecem no mesmo lugar onde foram deixados, assim como a mesa de seis lugares da família.

Há pelo menos três dias, Edirleia e Marcílio ajudam os homens do resgate a se localizar no que restou da comunidade. Na memória de cada um, permanece fresca a lembrança de onde viviam vizinhos e moradores do distrito que seguem desaparecidos. “É ruim ir embora. A gente quer acreditar que está tudo como antes. Ainda me sinto confortável aqui”, contou Edirleia.

No momento em que a lama atingiu Bento Rodrigues, os filhos do casal estavam em casa. A mãe estava na parte mais baixa da comunidade, devastada pela lama e pelo barro, mas voltou correndo para retirar a família do local. “Meu filho mais novo me pergunta muito sobre a casa. Já o mais velho, que sempre foi calado, não fala muito. Mas ele viu a coisa toda. Viu as casas sumindo, as pessoas correndo”, lembrou a mãe.

Apesar do trauma, marido e mulher garantem que estarão de volta à casa nos próximos dias para auxiliar as equipes de resgate, e também numa tentativa de se apegar ao local onde nasceram, cresceram, se conheceram e começaram uma família. De mãos dadas, eles caminhavam pelas ruas e observavam em silêncio a devastação que tomou conta do local.

– Vamos voltar sempre que possível. Quero estar aqui de novo no dia seguinte. É muito difícil sair de um lugar onde a gente se sentia tão bem – disse Marcílio, em um dos poucos momentos em que conversou com a equipe de reportagem.

Prefeito de Mariana

O prefeito de Mariana (MG), Duarte Júnior, deve receber alta nesta segunda-feira após ter sido internado no Hospital Monsenhor Horta e diagnosticado com alto nível de estresse e ansiedade. A informação é da assessoria de imprensa da prefeitura.

Duarte Júnior acompanhava a situação do distrito de Bento Rodrigues, afetado pelo rompimento de duas barragens, quando passou mal e precisou ser internado. A suspeita inicial era de infarto mas exames realizados no momento da internação não confirmaram o diagnóstico.

A assessoria informou que o prefeito, de 35 anos, não estava dormindo nem se alimentando corretamente desde a tragédia no município. Ele passava grande parte do tempo na Arena Mariana, local onde as doações estão concentradas.

Inquérito Civil

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) divulgou, nesta segunda-feira, nota informando que abrirá inquérito civil para apurar as consequências e os impactos sociais e ambientais provocados, em municípios capixabas, pelo rompimento, em Mariana (MG), das barragens da empresa Samarco.

De acordo com o documento, ainda hoje deve ser encaminhada uma equipe técnica para apuração dos prejuízos sociais e bens ambientais afetados pela lama resultante do desastre que atingiu o Rio Doce e que deve chegar ao Espírito Santo ainda nesta tarde. A previsão é que o nível do rio suba até um metro e meio e que o município de Colatina tenha o abastecimento de água suspenso em decorrência do acidente.

Segundo informações da assessoria de imprensa do governo do Espírito Santo, por causa das dificuldades no abastecimento de água nos municípios de Baixo Guandu e Colatina, a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) suspendeu, a partir desta segunda-feira, aulas em 12 escolas estaduais localizadas nesses dois municípios.