Meu nome agora é Zé Pequeno – entrevista com o ator Leandro Firmino

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Publicado sexta-feira, 27 de dezembro de 2002 as 10:42, por: cdb

Cena de Cidade de Deus: um jovem de aparência furiosa e selvagem entra porta adentro de uma boca-de-fumo e assusta um traficante, que pergunta: “Pô, Dadinho, como é que você entra assim na minha boca?” “Dadinho é o c……, meu nome agora é Zé Pequeno!” Depois desta cena em particular, fica difícil tirar da mente a figura marcante do ator Leandro Firmino da Hora, intérprete do temido Zé Pequeno.

O trabalho do ator se torna ainda mais impressionante quando se tem a oportunidade de conversar com ele e ouvir sua voz tranqüila e suas colocações mais do que equilibradas a respeito da arte e da vida. Leandro tem 24 anos e nunca tinha pensado em ser ator, nem de brincadeira: “Eu pensava em mil coisas, mas nunca imaginei ser ator”. Quando os produtores de Cidade de Deus percorreram diversas comunidades carentes do Rio de Janeiro em busca de novos talentos, um vizinho de Leandro o avisou do teste. E ele foi fazer, assim como quem não queria nada. Foi selecionado para o laboratório de três meses que a produção promoveu. Antes de ser escolhido para interpretar o Zé Pequeno, participou do curta Palace II, que teria sido seu teste final.

“Eu nunca pensei que ia mesmo atuar no filme. Na época da oficina, eu achei que só aquela oportunidade já seria demais. Se eu chegasse ao filme, seria uma conseqüência.” Perguntado se preferia um personagem mais “bonzinho”, Leandro demonstra profissionalismo: “Foi legal porque foi um desafio e eu sou uma pessoa tranqüila, então tudo bem.”

Sobre a experiência no set de filmagens, o ator explica que os diretores Kátia Lund e Fernando Meirelles incentivavam a improvisação: “O filme tinha que ser realista. Tinha um roteiro, mas nenhum ator se preocupou em dizer a fala exata do roteiro. Eu procurei colocar mais a intenção da cena e improvisar, inclusive usando gírias da época. A Kátia e o Fernando deixam o ator à vontade para ‘viajar’ na cena.”

Leandro Firmino da Hora afirma que sempre foi um garoto sossegado e muito “preso” pela mãe: “Eu estudava o dia todo no CIEP e quando chegava ia para a explicadora. Não sobrava tempo para ficar na rua de bobeira.” Considerando sua inexperiência como ator e sua distância do submundo retratado no filme, é espantoso o grau de realismo alcançado pelo ator. Ele explica o processo de construção do personagem: “Antes de começarem as filmagens, a produção me disse para não tentar imitar o Zé Pequeno do livro. Eu até dei uma folheada no livro, mas não o li. Eu procurei trabalhar as minhas próprias emoções, mesmo porque todo mundo tem sentimentos como o ódio dentro de si.”

Embora nunca tenha pensado em atuar, Leandro demonstra intimidade com a sétima arte, tendo como filme preferido o clássico “O Último Imperador”, de Bernardo Bertolucci. Gosta, ainda, de filmes independentes e originais. Do cinema brasileiro, “O Auto da Compadecida”, “Pixote” e “O que é isso, Companheiro?” O ator Matheus Nachtergaele, de quem Leandro ficou amigo durante as filmagens de CDD, é citado como um dos maiores atores da nova geração – “um monstro sagrado”, segundo ele. Também não faltam elogios a Lázaro Ramos, protagonista de Madame Satã, Lima Duarte e Fernanda Montenegro, que ele considera a maior atriz do mundo.

Apesar de não ter conhecido anteriormente nenhum dos atores principais de CDD, Leandro se tornou amigo do elenco durante as oficinas. E a amizade continua, já que todos freqüentam o Nós do Cinema, entidade onde trabalham as diferentes etapas do processo de criação de um filme: “A gente se encontra toda semana. Já produzimos um curta, chamado Cidadão Silva. Também estamos correndo atrás de grana, porque temos projetos futuros, inclusive de outro curta-metragem… também tem uma galera que escreve roteiro. O roteirista de Cidade de Deus, Braúlio Mantovani, deu um curso de noções básicas de roteiro.”

Planos para o futuro, Leandro tem vários: pretende cursar cinema na Faculdade Estácio de Sá a partir do ano que vem e fazer um curso de câmera, entre outras coisas. Enfim, co