Memórias póstumas de um político

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Publicado quinta-feira, 29 de agosto de 2002 as 00:31, por: cdb

Bem sei que o Brasil ingressa num ano eleitoral. Tudo se sabe do lado avesso da vida. Livre da carne e do peso das obrigações, daqui posso contemplar o que vocês padecem. E com a vantagem de que, encaradas deste ângulo, as coisas se mostram mais abrangentes aos nossos olhos, agora despidos de toda ambição e preconceito.

Fui político por trinta anos e quatrocentos milhões de dólares. Elegi-me a quatro ou cinco mandatos, ocupei os mais variados cargos na administração pública, vesti as casacas deste e daquele partido, segundo as conveniências do momento. Em suma, vivi por conta do contribuinte, a quem, agora, manifesto a minha sincera gratidão. Não tomem o meu preito como mera gentileza. Como assinalou Brás Cubas, companheiro na eternidade, a franqueza é a primeira virtude de um defunto.

Imbuído desse predicado celestial, quero expressar aos meus eleitores, agora privados de um bom candidato (pois, se não me estimassem não seriam meus eleitores), algumas considerações que, com certeza, haverão de ajudá-los a encontrar outro político que corresponda às suas expectativas. E porque o faço com absoluta transparência, não tomem o que lhes digo como uma confissão. Acolhido na mansão dos mortos, graças ao lobby dos santos de minha devoção, já não tenho do que me redimir.

Fui um político vaidoso. A vaidade é a mais evidente característica dos que desempenham tal ofício, convencidos de que se revestem de uma missão. Na verdade, ia escrever defeito. Prefiro característica, pois o político não considera a presunção uma falha. Antes, funciona como uma virtude. Graças a ela, não me senti ridículo ao início de meu alpinismo pelas escarpas do poder. Com a cara mais lavada, banquei o papagaio de pirata de figuras já notórias. Nas manifestações cívicas, colava o meu corpo ao deles, apoiava o rosto em seus ombros, segurava-lhes a pasta, na ânsia permanente de que eu fosse visto pelos olhares do público e nas fotos. Em mim mesmo, ninguém prestava atenção. Exceto quando passei a pegar carona na fama alheia. Então, entre tantas caras conhecidas, era natural que a galera, ao fitar ali o meu rosto, se perguntasse, primeiro, por sua própria ignorância: quem é aquele que não conheço e, no entanto, priva da intimidade de tão notórias autoridades?

Ah, logo o maná do poder choveu em minha seara. Ao me ver próximo aos poderosos, as pessoas começaram a tratar-me como tal. À saída de um comício, ofereciam-me carona em seus carros. Até uma caixa de uísque deram-me de presente, talvez imaginando que eu trabalhasse no gabinete de um deputado que acompanhei a um programa de TV. Aliás, os políticos ganham muitos presentes, como forma de investimento de empresas e grupos que preferem não prescindir deles. Nem é preciso que o político lhe seja favorável. Basta não se posicionar contra.

De poleiro em poleiro, conquistei o meu próprio mandato, graças à confiança de vocês, meus eleitores, nas promessas que lhes fiz. Só então, uma vez empossado, descobri as delícias do poder. Claro, há aborrecimentos, pedidos, favores, o emprego para o filho do amigo, a vaga na escola, a visita a lugares fétidos, os cafés com borra, os churrascos indigestos. Mas o que importa ao alpinista as agruras da escalada, os arranhões, as vertigens? Interessa é atingir o cume e expor o rosto à brisa fresca da vitória.

Assim, aqueles pequenos contratempos eram sumamente compensados pelos salários de complicadas aritméticas, mas sempre fartos; as verbas de representação; as passagens aéreas; as mordomias. Que prazer não ter que levar no bolso documentos e dinheiro! Todos me conheciam, abriam as portas antes que eu levasse à mão à maçaneta, apressavam-se a cobrir-me os gastos. Quanta gentileza dos donos de restaurantes, davam-me a provar o que havia de melhor, derramavam-me o vinho mais requintado e, de sobremesa, o tapinha nas costas, hoje é por conta da casa.

Ora, pensei que agarrar um osso e acabei por morder um filé mignon. Como largá-lo? Por isso, candidatei-me outras ve