Meirelles descarta intervenção no câmbio

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Publicado terça-feira, 15 de abril de 2003 as 11:21, por: cdb

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse nesta segunda-feira em Nova York que o governo não pensa em intervir na taxa de câmbio caso o real se valorize ainda mais, numa tentativa de estimular as exportações brasileiras.

Meireles proferiu palestra na Americas Society, um centro de estudos independente, falando pela primeira vez na qualidade de presidente do BC a uma platéia de banqueiros, analistas de mercado e cientistas sociais na cidade americana.

“Se compararmos a evolução do real com uma cesta de outras quinze moedas nos últimos cinco anos, veremos que a média delas se situa na casa de 2,27 reais por dólar. Como o dólar está acima de 3 reais, as exportações brasileiras continuam bastante competitivas,” disse.

O presidente do BC fez questão de frisar que, do ponto de vista macroeconômico, o governo Lula representa a continuidade do governo Fernando Henrique Cardoso.

“A política econômica do presidente Lula se baseia em três pilares: responsabilidade fiscal, regime de metas de inflação e câmbio flutuante,” disse. “Essa é a maneira mais moderna para se abordarem os mercados.”

De acordo com Meirelles, o mercado já começa a reconhecer a solidez e a seriedade do governo do PT, antes visto com desconfiança por Wall Street. “Há alguns meses, o dólar estava na casa de 3,90 por real e o risco Brasil atingia 2.433 pontos,” afirmou.

“Hoje o dólar caiu para R$ 3,16 e o risco Brasil está abaixo dos 900 pontos. Estamos no caminho certo e ainda temos espaço para uma recuperação maior.”

Perguntado sobre um possível corte na taxa de juros, que hoje está em 25,68% ao ano, Meirelles afirmou que não faria nenhum comentário sobre decisões futuras do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

“Aprendi isso com o senhor (Alan) Greenspan, com quem me encontrei no sábado,” disse, referindo-se ao diretor-geral do Federal Reserve (FED), o banco central americano.

Conforme reconheceu o presidente do BC, no último ano, o custo do ajuste econômico brasileiro foi o significativo aumento da inflação, que atingiu 16,57% no acumulado de doze meses medido no último mês de março. “Não existe almoço grátis, e a inflação foi o preço que tivemos que pagar pelo aumento extraordinário do risco Brasil.”

O BC trabalha com uma meta de inflação de 8,5% para 2003, enquanto o mercado antecipa que a inflação atingirá 12% no mesmo período. Meirelles reconheceu que, caso necessário, a meta do BC pode ser revista para cima.

Se no passado era a própria política econômica do governo Lula que provocava tensão em Wall Street, hoje, segundo o presidente do BC, a preocupação do mercado diz respeito à sustentabilidade dos superávits apresentados pela economia brasileira.

“Nos últimos anos, a Receita Federal fez um esforço imenso para conseguir recolhimentos extras, mas agora o mercado teme que esses patamares não venham a ser mantidos no futuro,” disse.

A curto prazo, a solução encontrada pelo governo foi realizar cortes mais severos nos orçamentos de 2003 e 2004, para garantir a manutenção do superávit primário em 4,5%.

Mas, a longo prazo, nas palavras do presidente do BC, a estabilidade econômica será alcançada pela aprovação das reformas fiscal, da previdência e das leis trabalhistas pelo Congresso brasileiro.