Mariana e Paris

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Publicado segunda-feira, 23 de novembro de 2015 as 09:20, por: cdb

Por Selvino Heck – de Brasília:

Na voz poderosa e utópica de Mercedes Sosa, a canção de Leon Gieco ecoa no salão do Centro de Convenções de Olinda, mil participantes do III Fórum de Educação Integral de Pernambucoem roda, de mãos dadas, professoras/es, educadoras/es populares, gestoras/as públicos, cantando SÓLO LE PIDO A DIÓS: “Sólo le pido a Dios/ que el dolor no me sea indiferente/ Que la reseca muerte no me encuentre/vacia e sola sin haber hecho lo suficiente.”

Os acontecimentos de Mariana e Paris ecoam no mundo. O maior desastre ambiental brasileiro. Um rio, o Doce, cantado em prosa e verso, morto, por décadas, talvez para sempre. Mortes, destruição, fauna, flores, plantas, pessoas sem casa, a torrente de lama atravessando cidades, uma enxurrada de dor, sofrimento avançando e levando seus estragos até o mar.

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Alguém diz durante o Encontro, todas e todos aplaudem com força: “Mariana não foi acidente. Foi ganância”. E a voz de Mercedes ecoa: “Sólo de pido a Dios/ que lo injusto no me sea indiferente”. A ânsia do lucro desmedido e a qualquer preço domina estes tempos.

Assassinatos a sangue frio em Paris, seguidos de outros assassinatos em resposta, como se não houvesse mais o que falar, só a intolerância, o ódio, a força das armas. “Sólo le pido a Dios/ que la guerra no me sea indiferente/ Es um monstruo grande y pisa fuerte/ Toda la pobre inocencia de la gente.”

Mesmo assim, as guerras se sucedem. Ódio e intolerância geram mais ódio e intolerância. O medo toma conta, jogos de futebol são cancelados. É um monstro grande que pisa forte. Só gosta quem aperta o gatilho e quem fabrica as armas. A indústria da guerra sustenta economias, entre as quais a da própria França, que sustenta a quem sustenta o EI – Estado Islâmico.

O cientista político Bertrand Badie, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, numa análise sensata e corajosa, diz:

“Eu acho que são a política externa da França e, talvez, sua política de integração nacional que devem ser revistas, mais do que a política repressiva, que muito dificilmente é 100% exitosa. A política internacional da França é muito mais favorável à intervenção exterior, particularmente no Oriente Médio, que os outros países ocidentais. O governo francês (que se diz socialista, grifo meu)escolheu, paradoxalmente, intervir contra o regime do sírio Bashar al-Assad em agosto de 2013, mas não foi seguido por ninguém, e depois contra o Estado Islâmico, em 2014. Recentemente, ainda deu um passo além, deixando de atuar só no Iraque para agir sobre o território sírio. Tudo isso mostra um nível de intervenção muito maior” (Folha de São Paulo, Entrevista da 2ª, 16.09.15, p. A16).

É uma outra parte da verdade atrás dos assassinatos injustificáveis e inomináveis de Paris, que fazem crescer a islamofobia e levam a mais guerra e mortes a sangue frio.

Enquanto isso, multidões vagueiam pela Europa, sem pátria, sem lar, sem futuro, sem esperança.

A onda de lama – e aí não se está falando de onda/mar de lama no plano simbólico – avança sobre gentes, comunidades, formando um rio de destruição de tudo que encontra. As cidades por onde passa ficam sem água, as populações não sabem o que fazer, e as empresas Samarco, Vale (que um dia, antes da privatização cheia de falcatruas, foi Vale do Rio Doce) e BHP anunciam que mais represas podem estourar. Mais mortes, mais destruição.

Segundo analistas, a “tragédia em MG deve secar rios e criar um ‘deserto de lama’. Parte dos impactos, como extinção de espécies, é irreversível; reconstituição do solo poderá levar séculos” (Folha de São Paulo, Cotidiano, 15.11.15, B1).

Segundo ecólogos, geofísicos e gestores ambientais, só em décadas, ou mesmo séculos, os prejuízos ambientais serão revertidos. Alguns, nunca. Enquanto está em suspensão no rio, a lama impede a entrada de luz solar e a oxigenação da água, além de alterar seu pH, o que sufoca peixes e outros animais aquáticos.

“Há espécies animais – a anta, a onça parda, a jaguatirica, o muriqui-do-norte, por exemplo – e vegetais ali que podemos considerar extintas a partir de hoje”, diz o geólogo e pesquisador André Ruschi. A força da lama ainda arrastou a mata ciliar, que tem função ecológica de dar proteção ao rio. “É o maior desastre ambiental da história do país.”

“Sólo le pido a Dios/ Que el dolor no me sea indiferente/ Que la reseca muerte no me encuentre/ Vacia e sola sin haber hecho lo suficiente.” Claro que não foi feito o suficiente, nem o necessário, nem em Mariana, nem em Paris.

É preciso cantar forte como canta Mercedes Sosa, ainda que com a dor mais pungente do mundo na alma e no coração: “Sólo le pido a Dios/ que el futuro no me sea indiferente/ Desahuciado está el que tiene que marchar/ A vivir una cultura diferente.”

O futuro? Há futuro? Qual futuro? Que ele “não me seja indiferente”. É preciso cobrar, exigir, lutar, mobilizar-se para que nunca mais aconteçam, em tempo algum, Mariana e Paris. Nem Paris, o ódio e a intolerância em grau máximo. Nem Mariana, a ganância desmedida, o lucro a qualquer preço.

 

Selvino Heck, é Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã e Secretaria Geral da Presidência da República. Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO).