Margin Call, a patética inutilidade do mundo financeiro

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Publicado domingo, 11 de março de 2012 as 18:53, por: cdb

Desde 2007, Hollywood produziu vários filmes e documentários sobre a crise e o submundo financeiro, numa lógica de exposição da decadência de um sistema moral e eticamente indefensável. Mas nenhum é tão eficaz como Margin Call.Artigo |12 Março, 2012 – 01:00 | Por Tiago Ivo Cruz

No meio desta crise consigo perceber para que serve um artista mas ainda não descobri função útil para um especulador financeiro.

Desde 2007, Hollywood produziu vários filmes e documentários sobre a crise e o submundo financeiro, numa lógica de exposição da decadência de um sistema moral e eticamente indefensável. ‘Maxed Out: Hard Times, Easy Credit and the Era of Predatory Lenders’ (2007), I.O.U.S.A (2008), ‘Capitalism: A Love Story’ (2009), ‘American Casino’ (2009), ‘Wall Street: Money Never Sleeps’ (2010), ‘The Company Men’ (2011), mas nenhum deles é tão eficaz como Margin Call. Esta ficção tem a história mais simples de todos eles, mas também a mais rica em informação humana, em cultura do mundo financeiro.

Uma grande firma de Wall Street que vende produtos financeiros descobre que eles não têm qualquer valor real e toma decisões que aqui não revelo. A firma onde se desenvolve a ação é anónima, diria que propositadamente. Poderia ser qualquer uma das grandes especuladoras de Wall Street. A história tem espaço em 24 horas, as 24 horas que antecedem o despoletar da crise do subprime.

O motor da narrativa é a descoberta do problema e a decisão que é tomada, mas este processo simples é acompanhado de uma tensão psicológica profunda que não larga o espetador, onde qualquer diálogo mas também qualquer silêncio é rico em significado.

Um cast de luxo garante personagens bem construídas, mas Kevin Spacey e Jeremy Irons destacam-se como as grandes personagens do filme. Os próprios nomes das personagens pouco ou nada interessam, cada papel está perfeitamente integrado no significado geral. Jeremy Irons interpreta o presidente sem escrúpulos da firma, Kevin Spacey o vendedor com problemas de consciência. Entre estas duas personagens revela-se o processo moral e humano que é necessário para permitir o sistema funcionar.

Um documentário sobre um processo semelhante revelaria documentos, declarações públicas, talvez conversas gravadas em segredo, mas nenhuma delas nos permite entender o interior de uma sala de reuniões com o presidente da Goldman-Sachs, a forma como ele pensa, como domina, como exerce poder, como fala com os seus colaboradores e como toma decisões.

Este filme não demoniza ou explora de forma ativista a imoralidade do sistema. As personagens e a extraordinária plausabilidade da sua interação permite, de forma pateticamente neutral, demonstrar que tipo de humanidade é necessária e permitida para o deboche moral do mundo financeiro acontecer. Um filme que permite chegar à conclusão inequívoca de que um especulador financeiro é o elemento mais inútil da nossa sociedade.

Sobre o autorTiago Ivo Cruz Programador cultural.