Marcada por desocupação do Pinheirinho, São José troca PSDB por PT após 16 anos

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Publicado terça-feira, 23 de outubro de 2012 as 09:28, por: cdb

Marcada por desocupação do Pinheirinho, São José troca PSDB por PT após 16 anos Após 16 anos de gestão do PSDB na cidade de São José dos Campos, Carlinhos Almeida (PT) foi eleito no primeiro turno com 51% dos votos. Em entrevista exclusiva, o futuro prefeito trata da questão das demissões na General Motors e da desmesura da administração estadual e municipal na desocupação do Pinheirinho.

Caio Sarack

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São Paulo – O petista Carlinhos Almeida, eleito no primeiro turno para a prefeitura de São José dos Campos, irá governar a cidade após 16 anos de administrações tucanas. Sua vitória representa uma derrota não apenas para o PSDB, mas também para o governador Geraldo Alckmin, pois a cidade do Vale do Paraíba estava em sua área de influência política.

Nesta entrevista à Carta Maior, Almeida analisa dois assuntos que puseram a cidade em evidência no noticiário: a demissão em massa de trabalhadores pela GM e a violenta desocupação do Pinheirinho, feita no final de janeiro deste ano e que retirou 1600 famílias de um terreno da massa falida da Selecta S/A, do ex-mega-especulador Naji Nahas.

Ele reconheceu a importância dos apoios recebidos do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff, mas disse que quer fazer um governo voltado para a cidade. “O PT se saiu bem dessas eleições, mas temos de entender bem os princípios que nos diferenciam dos neoliberais e traduzi-los para sua cidade. Não pode existir uma mera transposição do plano federal para o município. Às vezes o eleitor vota no Lula, na Dilma, mas não no seu candidato, tem que entender a cidade”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Carta Maior – Como foi a disputa eleitoral em São José dos Campos?
Carlinhos Almeida – A máquina jogou muito pesado, especialmente no último mês de campanha, quando muita gente decide voto. Para ter uma ideia, praticamente todos os cargos de confiança se licenciaram, entraram de férias para fazer uma campanha muito agressiva, com muito boato. Acho que foi uma vitória fundamental e que vai marcar uma nova etapa na vida da cidade.

CM – Tendo em vista a mediação que fizeram entre os 2.000 funcionários e a General Motors, como o senhor viu e vê esta questão?
CA – Há um erro da prefeitura anterior, no sentido de não ter feito um trabalho para adensar essa cadeia produtiva automotiva. Uma criação de distritos industriais dificultaria essa baixa que a GM está tentando fazer. Hoje, a GM age desta maneira por um problema de relação com o sindicato. Ambos têm dificuldades nas negociações. A empresa coloca uma questão do custo de mão-de-obra aqui da região, mas conta com logística e planta muito boas. Então, acho que se tivéssemos agregado a ela mais fornecedores e auto-peças, ela teria dificuldade de fazer esse movimento que faz hoje. É uma negociação em que as duas partes têm de fazer consessões, e o papel da prefeitura é de mediadora. A atual gestão [Eduardo Cury] errou porque tomou partido da empresa e defendeu o tempo todo o ponto de vista da GM. O prefeito deve ter uma posição de facilitador do diálogo, já que não tem poder de intervenção. Estive com o ministro [da Secretaria Geral da Presidência] Gilberto Carvalho, conseguimos falar com ambos, tanto sindicato quanto com a direção da empresa, e conseguimos juntos mais dois meses de negociação. A GM terá de formalizar algo e submetê-la à aprovação dos trabalhadores afim de evitar essas 2.000 demissões. Aí ganhamos fôlego para, por exemplo, desenvolver o distrito industrial, tentar atrair outros projetos da empresa para São José e criar melhores condições entre o sindicato e a empresa. A intervenção da presidenta Dilma e do Ministério do Trabalho foram essenciais para evitar as demissões, o recado da Dilma na Europa dizendo que com os incentivos federais as demissões não se justificariam, além da mediação do Ministério do Trabalho que foi muito bem feita.

CM – E os movimentos sociais, como foi a relação com a última gestão?
CA – A atual administração, e não é atual, são 16 anos de PSDB, tem uma filosofia quanto a movimentos sociais. Eles são contra, eles dizem isso abertamente. Essa filosofia se expressou na gestão do Emanuel [Fernandes] lá atrás, quando ele dizia que devia ser atendido aquele que esperava pacientemente a sua vez e não aquele que, abro aspas, “batia panela”. Evidentemente, vamos buscar outra relação com movimentos sociais. Como prefeito, vou fazer valer a legislação. No quesito habitação, acho fundamental respeitar a fila de pessoas inscritas. Não acho uma boa solução a ocupação para a saída do problema habitacional, mas o debate com o movimento social deve ser permanente, o tempo todo. O que não existiu nesses anos. Por exemplo, uma postura comum da prefeitura atual é que ela decidiu pegar família por família, caso por caso, e fazer pressão para negociações. Se uma família não entrou em acordo ao lado de uma que entrou, demolem a casa, deixam o entulho… Eles se recusam a se reunir com a população, a ter um diálogo com lideranças do movimento social e fechar um acordo em conjunto.

CM – Outro ponto de muito debate neste ano foi a desocupação do Pinheirinho. Abertura de inquéritos contra a Guarda Civil Metropolitana, a conduta da Polícia Militar. Como o senhor avaliou?
CA – Eu fiz uma campanha em que disse que iria olhar para o parabrisa, e não para o retrovisor. Situações como essas do Pinheirinho devem ser evitadas. Esta ocupação, que aconteceu na gestão do Emanuel há oito anos, podia ter sido evitada com a aplicação da legislação existente e de um monitoramento que a prefeitura deveria fazer, e que pretendo fazer, das grandes glebas da cidade que estão em situação, digamos, de abandono, como é o caso ali. O proprietário não pagava IPTU, não cuidava da área, não estava cercada nem utilizada, além de nenhum projeto em andamento – existiu um projeto de loteamento há muitos anos, mas caducou. Se o município tivesse uma política de monitoramento destas áreas e uma política de habitação, ainda contando com o mecanismo do Estatuto da Cidade, a gente poderia ter evitado a ocupação. Aquele movimento cresceu do jeito que cresceu, e a escolha da desocupação como foi feita foi trágica para as famílias que estavam lá. Na medida que se libera um mandado judicial e você tem de fazer a desocupação, faça dentro da lei. O que nós vimos foi um cenário em que a lei foi totalmente desconsiderada. Ela foi trágica para o Estado, como figura, enquanto ente, porque foi uma ação de violência desproporcional e não legitimada pela proteção dos seus cidadãos. Trágica sobre todos os pontos de vista.

CM – O senhor acha que Pinheirinho pesou na eleição?
CA – O que aconteceu nessa eleição foi uma vontade de renovação política na cidade. PSDB há 16 anos e nesses 16 anos fizeram investimentos, mas descuidaram de outras áreas, revelando pouco zelo pelas pessoas. Não há dúvida que a região Sul da cidade [região de baixa-renda, onde ficava a ocupação do Pinheirinho] ficou ressentida por este episódio, porque ele desorganizou a vida deles até hoje. Essa vontade por renovação não se limita a São José, em São Paulo o Haddad está com 10 pontos na frente de um político tradicional.

Fotos: Divulgação