Manufaturado brasileiro perde espaço na América do Sul

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Publicado terça-feira, 28 de fevereiro de 2012 as 08:01, por: cdb

Como venho alertando, aqui, neste blog e nos artigos, não é somente no nosso mercado interno que estamos perdendo espaço para os produtos vindos de outros países. Também em mercados em que tradicionalmente tínhamos presença, como em países da América Latina, a nossa participação vem minguando. Esses seriam destinos naturais para boa parte da nossa produção.

Mas não é só. Preocupam, também, os manufaturados – produtos, em geral, de maior valor agregado – que têm perdido espaço para outros itens em nossa pauta, como petróleo e commodities. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), há cinco anos eles pesavam 52,25% nas vendas externas. No ano passado, responderam por apenas 36,05%.
 
Também a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) apresenta outros dados, tão preocupamentes quanto os do MDIC. Revelam, por exemplo, que na nossa relação comercial com a Argentina – terceiro destino em importância das nossas exportações – em 2007, 93% do exportado eram manufaturados. No ano passado, essa fatia caiu para 89,9%. O fenômeno se repete em relação ao Chile – há cinco anos, os manufaturados representavam 64% das nossas vendas; no ano passado, a participação caiu para 52,7%. No caso venezuelano, a fatia também caiu, no mesmo período, de 82,9% para 55,1%. E assim por diante.

Desova de estoques

Em tese, devido à nossa localização, o Brasil seria uma opção natural de fornecimento de manufaturados para os países da América do Sul, explicou José Augusto de Castro, presidente em exercício da AEB, ao jornal Valor. Mas nem mesmo por estas paragens temos conseguido barrar o ímpeto de outros países no seu afã de desovar estoques que se acumularam pela queda das vendas nos mercados europeu e norte-americano.

“Isso é resultado da estratégia de países como a China, que estão entrando de forma mais agressiva em mercados em crescimento”, diz Castro.

Perda de terreno

Na prática, há uma combinação de fatores que estão nos levando a perder terreno. Além da agressividade da China, temos custos internos que ainda são altos em relação a outros países e um real valorizado. Ou seja, a questão cambial – que tem penalizado a competitividade da produção industrial brasileira – e a reforma tributária continuam na ordem do dia.

Recentemente, assistimos, ainda, a uma reação de alguns países – a exemplo da Argentina – dificultando a entrada de importados para defender seu mercado interno. Recentes medidas anunciadas pelo país são consequência da queda do preço da soja e da necessidade de a Argentina manter reservas em dólares para enfrentar a crise internacional. Este é um problema que o Brasil não tem.

Eximbank e Banco do Sul

A manutenção da competitividade brasileira neste cenario passa, também, pela necessidade da redução dos nossos custos financeiros e do financiamento da indústria e das exportações. Daí a importância da criação do Banco do Sul, que tudo indica se tornará realidade, e do Eximbank brasileiro.
 
Ambas as instituições são uma boa iniciativa para estimular as exportações e disputar com os chineses o mercado latino-americano. Os dois bancos são uma necessidade urgente para financiar nossas exportações de serviços, tecnologia, capitais, além de alimentos e manufaturas para toda região.

Insisto, ainda, e mais uma vez, no aumento dos investimentos em educação e inovação.