Mais um golpe contra o povo

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 18 de setembro de 2009 as 10:42, por: cdb

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados acaba de aprovar projeto de lei que regulariza o funcionamento dos bingos e das máquinas de caça-níqueis – jogos de azar que foram proibidos recentemente pelo governo, e anteriormente, por lei federal. A nova investida revela a força do crime organizado, principal patrocinador da legalização dos jogos no Brasil, e a influência desse grupo nos partidos e nos parlamentares brasileiros.

Qual o sentido dessas atividades na sociedade brasileira? É uma questão de interesse público ou social? A legalização do jogo – ou desse tipo de jogo – deve ser evitada? Por quê? A decisão adotada pelos deputados federais suscita a imediata reflexão e amplo debate na sociedade. Queremos mesmo que os bingos e as máquinas de caça-níqueis funcionem abertamente, atuem no território nacional e pratiquem a extorsão da poupança popular com o respaldo da lei e do Estado brasileiro? O que a sociedade ganha com isso?

Enfim, a nova investida das máfias que operam os jogos exige uma tomada de posição, urgentemente. O assunto não deve ser encarado pelo aspecto da moral. Não se trata de uma condenação moral do jogo, como algo ruim ou pecamisoso. Os jogos, em geral, fazem parte da cultura de vários povos. Aprendemos a jogar desde a infância, eles animam a criatividade e a sociabilidade. Todos nós crescemos envolvidos em jogos que despertam as disputas e as conquistas, alguns pela racionalidade e outros pelas habilidades físicas e motoras. Os jogos não são, portanto, condenáveis em si, pois fazem parte da recreação familiar e das relações sociais das pessoas nos locais de trabalho, de estudo e de lazer. Nada contra todos os jogos que unem as pessoas e tornam as suas vidas melhores.

Mas estamos falando de outro tipo de jogos. Estamos falando de organização empresarial criada para a exploração de determinados tipos de jogos que proporcionam lucro, muito lucro, concentração de lucro e de riqueza nas maõs daqueles que fornecem os meios (prédios, máquinas e recursos humanos) aos jogadores. O atrativo não é a criatividade, a sociabilidade, a recreação e o prazer, mas o objetivo de ganho fácil, tanto para os jogadores quanto para o organizador do jogo. Com o agravante de que o organizador do jogo sempre leva vantagem sobre os jogadores.

Portanto, não se trata de legalizar uma atividade que faz parte da cultura do povo brasileiro, mas de legalizar uma atividade que visa – de antemão, previamente, planejadamente – extorquir as pessoas, retirar dos trabalhadores e do povo a sua poupança, a sua renda, o seu salário – enfim, na maioria dos casos, o dinheiro que seria destinado ao sustento e ao bem estar da própria pessoa e da sua família.

É claro que temos na sociedade vários mecanismos de extorsão legalizados. As loterias, todas elas, vendem a ilusão da riqueza para muitos, mas, na prática, apenas retiram de muitos a contribuição voluntária (animada por muitas promessas jamais cumpridas) para investimentos públicos em setores como a saúde, a educação, os esportes. É claro que as tarifas telefônicas e os juros bancários também são extorsivos – e deveriam ser limitados pelo Estado. No entanto, por trás dessa nova liberação dos bingos e das máquinas caça-níqueis existe algo muito mais danoso ao conjunto da sociedade – que é o fortalecimento das máfias ligadas ao crime organizado, ao dinheiro sujo do narcotráfico e da sonegação fiscal das empresas nacionais e estrangeiras.

Se for aprovado no Congresso Nacional, o projeto dos bingos representa nada mais nada menos do que a legalização de novo assalto à economia popular – um crime inaceitável numa sociedade carente de justiça e igualdade.

 Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP.