Maestro Marcos Farias fala de sua convivência com o padrinho sanfoneiro

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Publicado quinta-feira, 13 de dezembro de 2012 as 09:09, por: cdb
Farias
Marcos Farias é considerado por seus colegas  como um dos melhores sanfoneiros do país

– Um artista como Gonzaga não morre. É assim que o maestro Marcos Farias, afilhado de batismo do rei do baião começa a entrevista. “Ele cantou maravilhosamente a cultura nordestina e deu voz e rosto a um povo que, naquela época, era simplesmente mão de obra barata” diz o maestro sobre seu padrinho.

Filho de Marinês, conhecida como o Luiz Gonzaga de saia, Marcos começou muito cedo a ter contato com o rei, porque seus pais, músicos, trabalhavam com o sanfoneiro. Ainda pequeno, o maestro foi vizinho de Gonzaga na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Ele recorda que os almoços de natal eram na casa da sua mãe e as ceias, na casa de Gonzaga. “Volta e meia ele pedia pra minha mãe fazer polenta com carne assada, que ele gostava muito” lembrou.

O maestro conta que, por volta dos cinco anos de idade, início das suas zabumbadas, seu padrinho lhe dava muitos conselhos de como se comportar. “Ele dizia como eu devia chegar a um ambiente, como sair, o que falar e de que maneira”, contou.

Segundo Marcos o padrinho dizia que ele “tinha obrigação de pedir licença”, precisava “puxar cadeira pra mulher” e não podia fazer prato muito cheio nem falar de boca cheia. “[Ele também dizia que ] a gente deve chegar em todo lugar de banho tomado, barba feita, cabelo penteado e cheiroso. Por mais pobre que a gente seja, tem que ser limpo e pontual, recordou.

Farias
Em batismo, Marcos Farias fica no colo de Dona Helena, mulher de Gonzaga, em 1960

Mais tarde, o padrinho passou a se preocupar com seus estudos. “Ele sempre me cobrava estudar e o comportamento como representante jovem da música nordestina” relatou.

Ele conta que, na maturidade, Luiz Gonzaga foi uma pessoa muito sóbria e doce. “Ele tinha aquele jeitão de nordestino cansado, de muita luta, muita batalha, de muitos desamores que davam uma expressão sisuda mas não era, ele era tranquilo, um homem de poucas palavras.”

Segundo Marcos, Gonzaga contribuiu para desenvolver a cultura musical do Nordeste. Várias canções, como Mulher Rendeira, que fazia parte da cultura popular, ele adaptou e criou muita coisa nova. Como novidade, o maestro conta que Gonzagão trouxe o arrasta-pé. “Ele praticamente criou o arrasta-pé, que é um estilo derivado das polcas alemãs, das marchas marciais. Ele trouxe isso para o Brasil. Ele tinha essa cultura e desenvolveu dando o sotaque totalmente nordestino”.

Para Marcos, Gonzaga foi atrevido ao criar algumas coisas e melhorar o que já existia. É o caso do xote que representa uma inovação de Gonzaga. “Dizem que o xote é derivado do foxtrot americano, mas ele botou o sabor todo particular dele”. Segundo o maestro, Gonzaga criou a maneira de tocar o triangulo, a dança do xaxado e a maneira de fazer o xote, “do jeito gostoso que tem hoje, que quando a gente toca todo mundo vai pra pista dançar”.

Márcio Paschoal, autor de uma biografia do cantor e compositor maranhense João do Vale, que teve quatro parcerias com Gonzaga, acredita que o rei do baião foi quem melhor vestiu a música nordestina. “Ele pegou a melodia que vinha do Nordeste e transformou em sucesso, principalmente nas parceria com Zé Dantas e Humberto Teixeira. A forma dele interpretar abriu caminho e o popularizou”.

O escritor conta que foi Luiz Gonzaga quem abriu as portas para os cantores nordestinos: primeiro para João do Vale e Jackson do Pandeiro, que com ele formaram o trio nordestino, e posteriormente para grandes cantores como Fagner, Alceu Valença e Elba Ramalho.