Lula faz discurso emocionado da Festa da CUT

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Publicado sexta-feira, 29 de agosto de 2003 as 02:52, por: cdb

Vestindo boné da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso emotivo na festa de comemoração dos 20 anos de fundação da central sindical, que ajudou a criar.
 
Falando para uma platéia de aproximadamente dois mil sindicalistas, Lula disse que fará as reformas trabalhista e sindical, mesmo que isso desagrade a algumas pessoa. E mandou um recado para os dirigentes da central sindical.

– Vamos construir uma nova nação e para isso precisamos do sacrifício de todos. Vocês têm que me cobrar, mas minha relação com vocês é de lealdade, não se dá por meio da submissão. Vou fazer a reforma sindical e a reforma trabalhista porque a CUT, embora grande, só tem 20% dos trabalhadores brasileiros sindicalizados – disse o presidente.
 
Há muito o que fazer. E vai ter que mudar sim. Por que não teria que mudar (o movimento sindical)? Por que agora tá todo mundo acomodado? – perguntou Lula, que reencontrou no Pavilhão Vera Cruz, onde aconteceu a festa, centenas de companheiros do tempo de torneiro mecânico, como Humberto, que foi seu chefe na Villares, onde foi metalúrgico na década de 60.

Lula disse que seu governo tem vários desafios pela frente e pediu a colaboração dos sindicalistas.

– Não vou resolver tudo sozinho. Há um jogo a ser feito e não será o Lula que vai resolver tudo sozinho. Não depositem tudo nas costas do presidente. Todo mundo aqui tem suas responsabilidades – disse Lula, que começou a falar por volta das 23h da última quinta-feira e discursou durante meia hora.

Dizendo viver uma ‘situação transcendental’, Lula chegou a brincar com o diretor de comunicação da CUT, Antonio Carlos Spis, que é também negociador da CUT representando os trabalhadores petroleiros.

– Mas Spis, a Petrobrás só ofereceu 6% (de aumento para os petroleiros)? É muito pouco. Precisa ver isso com mais carinho. Precisa negociar com mais altivez – disse Lula ao petroleiro Spis.

Bastante à vontade no meio dos amigos, Lula disse que ‘as coisas não são como a gente gostaria que fosse’.

– Se fosse possível distribuir renda por decreto, eu já teria feito isso. Mas há um jogo de forças políticas. É como no futebol. Você faz um gol e o adversário faz outro. Eles fazem dois a um e a gente empata. É um jogo que às vezes a gente ganha e noutras a gente perde – disse Lula, usando metáforas do futebol novamente.

Ao falar da reforma da Previdência, que sindicalistas da CUT ficaram contra, Lula lembrou que se quisesse só aplausos, não teria feito a reforma.

– A reforma ajuda mais os governadores do que o governo federal. Se eu quisesse aplausos, não teria feito a reforma da Previdência. Aliás, o Berzoíni (ministro da Previdência, Ricardo Berzoini), aqui presente, foi um herói, por ter feito uma reforma que acabou com privilégios no Brasil – disse o presidente.

– Eu não pensei nas próximas eleições. Eu pensei nas próximas gerações – concluiu Lula, justificando a necessidade da reforma da Previdência.

Emocionado, Lula lembrou dos tempos em que passou fome e recordou-se das eleições que disputou e perdeu. Pela primeira vez, disse que perdeu a eleição presidencial em 1989 para Fernando Collor de Mello “roubado”.

– Em 89 eu perdi, mesmo roubado, mas perdi – disse Lula.

Ele disse que ganhou as eleições no ano passado para mudar o Brasil.

– É fácil ser conservador e não mudar nada. Eu poderia fingir que está tudo bem e não fazer nada e deixar tudo como está. Mas eu não fui eleito para isso. É mais fácil falar do que fazer, mas eu vou fazer e continuar falando – garantiu o presidente.