Lula diz ter carregado o ‘vírus da paz’ ao Oriente Médio

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 15 de março de 2010 as 11:38, por: cdb

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em um discurso a empresários em Israel que tem o “vírus da paz” e que não se lembra do dia em que brigou com alguém, apesar de fazer parte de um “partido complicado”.

– Eu acho que o vírus da paz está comigo desde que estava no útero da minha mãe. Não me lembro do dia em que briguei com alguém. Eu já fiz muita disputa política, pertenço a um partido complicado. (…)Temos divergências políticas de causar inveja a qualquer pessoa do mundo – acrescentou Lula, ao lado do presidente de Israel, Shimon Peres, arrancando risos da plateia.

No discurso de improviso, Lula exibiu suas credenciais como uma espécie de especialista no diálogo. Mencionou, por exemplo, um encontro com o ex-presidente George W. Bush em 2003 em que o presidente brasileiro disse que o Iraque não era um problema do Brasil e que sua prioridade era combater a miséria.

– Pensei que teria animosidade na minha relação com o presidente Bush… Como fui sindicalista a vida inteira, imaginava que ia brigar muito com os Estados Unidos. Eis que o presidente Bush terminou o mandato e eu vou terminar o meu sem que tenhamos tido nenhuma divergência. Quando tivemos, resolvemos por telefone – disse.

Lula mencionou também o primeiro discurso de Evo Morales ao assumir a presidência da Bolívia.

– O primeiro discurso foi tomar a Petrobras. Mas entendemos que o gás era um direito da Bolívia, um patrimônio do povo boliviano e fizemos um acordo com a Bolívia. Tinha gente que queria que o Brasil fosse duro com a Bolívia. Talvez por causa da minha origem, não conseguia perceber como um metalúrgico de São Paulo ia brigar com um índio boliviano. Dialogamos e hoje estamos numa relação excepcional – resumiu.

Justificando a decisão de dialogar com a Bolívia, Lula acrescentou:

– A nós brasileiros não nos interessa sermos grandes e ricos, se estivermos cercados de pobres. Não é sensato do ponto de vista da geopolítica estar cercado de gente mais pobre que você de todos os lados – disse Lula, sem fazer uma referência direta ao conflito entre israelenses e palestinos.

Negociações

Após o encontro com Peres e Lula, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que na reunião foi discutida a possível contribuição do Brasil ao processo de paz. No entanto, o chanceler não deu detalhes sobre qual papel concreto o país poderia desempenhar nas negociações.

– Ele valorizou muito o papel do Brasil em mais de uma situação, podendo ajudar a promover o diálogo. Ele acha que essa capacidade de fazer amigos com todos pode ser muito útil nessas situações, mas ali não era o momento de se discutirem esses detalhes – disse Amorim.

Antes de iniciar seu discurso de improviso, Lula havia falado a empresários israelenses sobre as oportunidades de investimento no Brasil, citando o PAC, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o trem de alta velocidade entre Campinas, São Paulo e Rio e as oportunidades de exploração de petróleo na Bacia de Campos.

Lula disse ainda que o Brasil vai, “certamente” criar dois milhões de empregos em 2010 e que a economia vai crescer mais de 5% neste ano.

Contribuição brasileira

Pela manhã, em seu discurso na residência oficial do presidente de Israel, Shimon Peres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “é importante que se ouça mais gente” na busca por soluções para o conflito entre israelenses e palestinos.

– Se fosse tarefa fácil, já teriam conquistado a paz. Por ser difícil, é importante que se ouça mais gente – disse o presidente brasileiro em Jerusalém.

O anfitrião Peres, que discursou antes de Lula, fez uma referência breve à possível contribuição brasileira ao processo de paz na região.

– Sei que o senhor traz uma mensagem de paz. Sua contribuição será bem-vinda – afirmou o presidente de Israel.

Fracasso norte-americano

A crise atual entre israelenses e palestinos foi detonada durante a visita do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, na semana passada. Biden planejava lançar um novo processo de negociações indiretas entre os dois lados, quando o Ministério da Defesa de Israel aprovou a construção de 112 residências no assentamento de Beitar Ilit, em território ocupado na Cisjordânia.

O anúncio foi visto como uma ameaça à retomada das negociações, mas a pá de cal veio no dia seguinte, quando o Ministério do Interior, controlado pelo Shas, partido ultraortodoxo e a favor da ampliação dos assentamentos, divulgou a aprovação da construção de 1,6 mil casas em Jerusalém Oriental, que os palestinos reivindicam como capital de seu futuro Estado.

A decisão, classificada por muitos como uma humilhação a Biden, azedou relações entre Estados Unidos e Israel e marcou o fracasso da visita do vice de Barack Obama. Não tardou para que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, se retirasse das negociações, Israel decretasse o fechamento temporário do acesso à Cisjordânia e reforçasse o policiamento em Jerusalém.