Lula: a revolução do óbvio

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Publicado sexta-feira, 1 de novembro de 2002 as 22:51, por: cdb

Lula, companheiro, amigo, irmão e Presidente. No dia de sua e de nossa vitória, um anjo bom me sussurrou que devia escrever-lhe essa carta. E o faço unido à comoção de milhões de outros brasileiros. As coisas brotam do coração.

Você é o único dentre os presidentes que tem a cara do povo brasileiro. Você vem da grande tribulação. Em seu corpo carrega toda a tragédia e também toda a esperança do povo brasileiro. Essa esperança foi historicamente sempre derrotada, mas nunca vencida. Agora por você e com você, ela triunfa e, oxalá, definitivamente.

Você carrega um fardo pesado: ser a encarnação de um outro Brasil possível, no qual todos possam caber. Aqueles que o mercado considera sobrantes e zeros econômicos ocupam agora a centralidade de seu governo. Você os convenceu de sua força histórica Chega de fazer para os empobrecidos. Chegou a hora de fazer a partir deles e com eles. Essa é a novidade que você traz na esteira de Paulo Freire e da Igreja da libertação.

Você Lula, se propôs realizar a revolução do óbvio: tratar com respeito a cada cidadão, devolver-lhe o direito de ter esperança, fazer com que todos possam comer, ao menos três vezes ao dia, criar condições de trabalho e de crescimento do país, base para que se possa ter renda, escola, saúde, moradia, segurança e lazer e, por fim, reforçar o trabalho articulado com o capital produtivo para derrotar o capital especulativo, ruína da economia real.

Mas seu significado não se restringe ao Brasil, alcança o mundo, especialmente aqueles milhões que sonham com uma outra globalização, solidária e respeitosa da natureza. Você se transformou num símbolo antecipador dessa possibilidade urgente e tão ansiada.

Por fim, Lula, você irá mostrar uma outra forma de fazer política e de exercer a Presidência: no palácio, para organizar, mas principalmente nas praças, para realizar junto com a população. Então você poderá mostrar o que sempre disse, querer fazer política com o coração. Isso é exercer a política como ética, como cuidado para com o bem-estar do povo, cujas carências você conhece em sua história de vida, pois você chorou de fome e, mais ainda, por não poder levar para casa comida aos irmãozinhos. Você vai mostrar na política aquilo que é verdade na física quântica: por causa da sinergia de todos com todos, dois mais dois não são quatro, são cinco. Aqui estará o segredo de seu êxito social.

O poder é a maior tentação para o ser humano, pois ele nos dá o sentimento da onipotência divina. Ele é vigor puro. E ficando só vigor, ele é destrutivo. Só a ternura limita o poder, fazendo que ele seja benfazejo. Ternura e vigor são as duas dimensões básicas que constroem o ser humano bem realizado. O equilíbrio entre ternura e vigor fez com que os grandes fossem grandes, como Gandhi, Chico Mendes, Betinho, Francisco de Assis e, não em último lugar, o homem de Nazaré. Você, Lula, por obra e graça do Mistério, é uma potência de ternura canalizada numa torrente viva de vigor. Daí nasce e se alimenta o seu carisma que fala para o profundo das pessoas, lá onde vivem arquétipos ancestrais.

Por último, Lula, falo a você como homem de fé. Em decisões difíceis não deixe de recorrer à fonte secreta de inspiração e de luz: o Espírito Criador. Com sua política você vai realizar todo o necessário, com seu carisma vai fazer o possível, mas, com a luz do Espírito, vai realizar até um pouco do impossível. Com a imensa fraternura de tantos anos.

*Leonardo Boff* é Teólogo