Fim do mundo? Só se for de novo

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Publicado sexta-feira, 21 de dezembro de 2012 as 07:42, por: cdb

Por Luciana Andrade

templo maia
Os maias criaram uma civilização que previu o fim do mundo

Eu poderia falar do vídeo exaustivamente compartilhado nesta semana, das mulheres “aprendendo a submissão” no congresso de uma igreja. Ou abordaria uma notícia que me despertou indignação, sobre mensagens de texto que avisam ao pai ou ao marido quando a mulher viaja na Arábia Saudita (daqui a pouco, além da vigilância hightech, inventam uma forma mais eficiente de dar chicotadas).

Quem sabe eu devesse colocar o dedo na ferida em mais um caso de discriminação de homossexuais, aquele do restaurante que hostilizou um casal que se beijava. Ah, ainda teria uma crítica às revistas femininas brasileiras, que oscilam entre “fulana mostra sua barriga chapada” e “300 segredos para enlouquecer seu homem” – todas desistiram de ser feministas? Não sei, mas certamente desistiram de ser criativas.

E a menina anoréxica que é procurada por outras que querem ser como ela? Eu ainda teria uma reflexão sobre o aumento da sensação de insegurança, que contamina os momentos comuns (como nesta semana, em que preparamos uma carteira “para o ladrão” no carro).

Pensando bem, caberia escrever sobre temas mais prosaicos, como a inesgotável falta de gentileza que domina nossas vidas, desde a fila da farmácia até a vizinha que bate a porta o dia inteiro.

Pensei em tanta coisa para escrever que acabei não focando em nenhum tema. Sinal dos tempos modernos, em que a dispersão das ideias prevalece? Possível. Comecei então a fazer um balanço das minhas últimas incursões às redes sociais e comecei a perceber tanta coisa estranha.

Também achava que boa parte dos assuntos que mencionei no começo deste texto estariam superados; mas o que tenho lido são diversos comentários que compartilham desinformação e perpetuam preconceitos. São poucos os que remam contra a maré das banalidades. Não conheço a profecia dos maias, mas é o caso de pensar que todo dia vivemos um pouquinho do fim do mundo.

Luciana Andrade é jornalista e doutoranda em História Social na PUC/SP