Loteria britânica financia peças teatrais em presídios brasileiros

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Publicado terça-feira, 11 de dezembro de 2001 as 18:57, por: cdb

Dinheiro da loteria inglesa para projetos teatrais dentro de cadeias brasileiras. Esta é a destinação de 400 mil libras (R$ 1,3 millhão) da Loteria britânica através de uma organização Não-Governamental (ONG), a ONG People’s Palace Project, que luta pela defesa dos direitos dos presidiários no Brasil.

E, na semana que a Organização das Nações Unidas celebra os Direitos Humanos em todo o mundo, a ONG vai mostrar o resultado do seu trabalho com 300 presidiários subindo ao palco em São Paulo para dar voz aos problemas enfrentados atrás das grades.

O responsável pelo projeto de teatro nos presídios brasileiros é o inglês Paul Heritage, professor de Arte Dramática da Universidade de Londres. Heritage está no Brasil especialmente para coordenar os últimos ensaios, no Centro de Observação Criminológica – um dos presídios que fazem parte do Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo.

Doze homens fazem parte do grupo, que ensaia uma peça escrita por eles mesmos, relatando, com muito humor, a dura vida na cadeia. Apesar de engraçada, a peça deve causar muita polêmica, porque critica a forma como os presidiários são tratados pelos funcionários do presídio.

Mas os detentos não parecem ter medo de retaliações e são encorajados pelo professor de teatro Paul Heritage, que explicou como a loteria britânica escolhe as instituições para doar verbas.

“A loteria britânica divide seus lucros em cinco partes. Uma delas vai para projetos internacionais de desenvolvimento social, normalmente para coisas ligadas à pobreza, educação e saúde”, explicou Paul Heritage, que também é diretor da ONG People’s Palace Projects.

Além dos presos, o projeto teatral também engloba os funcionários dos presídios. “Nós estamos treinando os monitores de educação dos presídios em técnicas de teatro de Augusto Boal e eles, no futuro, vão implementar essas técnicas em oficinas de direitos humanos. O projeto é muito grande, já está em 37 penitenciárias, beneficiando 20 mil pessoas”, revelou o professor.

A idéia é discutir os problemas da população penitenciária através do teatro, encorajando o diálogo entre quem está dentro e fora da cadeia, na medida que a ONG defende a tese de que fazer teatro no presídio tem se mostrado uma importante ferramenta na recuperação dos detentos.

Além desse projeto, Paul Heritage também está adaptando uma versão para a Rádio BBC do livro Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella, que se tornou um best seller no Brasil. A peça será toda gravada dentro do Complexo Penitenciário do Carandiru, que está sendo desativado. Os atores serão brasileiros, falando inglês.

“A equipe do teatro no rádio da BBC virá em março do ano que vem e ficará gravando durante uma semana. A peça deve ir ao ar em junho”, afirma Heritage. “O teatro no rádio é uma grande tradição na BBC. Esse projeto é muito especial.”

O professor acredita que o público inglês ficará interessado na história do presídio mais famoso da América Latina. “Acho que vai ter uma grande repercussão. É claro que as penitenciárias são diferentes em cada país. Mas o medo de ser preso, de perder a liberdade, é universal”.

A apresentação dos grupos de teatro de presidiários, organizados pela ONG People´s Palace, acontece nesta quarta-feira no Memorial da América Latina, em São Paulo. A presença do Ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, é aguardada no espectáculo.