Londres chamando

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Publicado segunda-feira, 29 de agosto de 2011 as 11:05, por: cdb

As penas a que alguns jovens foram submetidos revelam o firme propósito de silenciar os usuários da rede

 

29/08/2011

 

Silvio Mieli

 

As primeiras sentenças aplicadas aos manifestantes de Londres confirmam a tendência à criminalização do uso da única forma de comunicação que restou aos excluídos: a internet.

As penas a que alguns jovens foram submetidos revelam o firme propósito de silenciar os usuários da rede. E não estamos falando da China, tantas vezes utilizada pela grande mídia como paradigma de censura à rede, mas do Reino Unido, que nos últimos meses vem protagonizando uma decadência institucional em efeito dominó: escândalo dos tabloides, Scotland Yard, BBC e, agora, a própria Justiça e o mito da liberdade de expressão.

Nos conflitos das ruas de Londres mais de 2.700 pessoas foram presas. E dos vários casos que já foram julgados numa espécie de mutirão judicial, saltam aos olhos alguns exemplos. Jordan Blackshaw, de 20 anos, e Perry Sutcliffe-Keenan, de 22, pegaram 4 anos de reclusão por incitação à desordem através da utilização do Facebook. Detalhe: não houve nenhuma prova concreta de que as mensagens postadas pelos dois resultassem em qualquer desdobramento violento.

Num outro caso, um precedente gravíssimo na história da internet. Um garoto de 17 anos, que postou na sua página do Facebook a frase “Vamos lá manifestantes!!!” foi judicialmente banido das redes sociais por um ano. Será obrigado a prestar 120 horas de serviços comunitários, um ano de reabilitação e toque de recolher por três meses.

Como disse muito bem Naomi Klein, se os tumultos das ruas de Londres não foram uma questão política, seguramente configuraram um problema matemático. Uma equação que se estabelece entre os saqueadores noturnos, cujo grau de exclusão veio à tona, e os saqueadores diurnos (banqueiros e lideranças políticas que despedem trabalhadores do setor público, fazem dos professores bodes expiatórios, cancelam acordos previamente firmados com sindicatos, aumentam as mensalidades escolares, promovem rápida privatização de patrimônio público e reduzem aposentadorias e pensões).

Ora, o que a justiça britânica quer tentar cortar pela raiz através dessas penas é uma das variáveis dessa equação: a rápida articulação dessa resistência (seja através de protestos organizados, seja através de saques) com a ajuda das “redes sociais”. Este é o modelo que pode vingar daqui para diante pelo mundo afora, o que justifica todo e qualquer esforço na luta pela liberdade de expressão e pelo direito à comunicação.