Lonas pretas, retratos de dor e sofrimento de um povo!

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Publicado sexta-feira, 24 de junho de 2011 as 19:58, por: cdb

O vento frio soprava sobre as chamas de um pequeno fogo no chão. Nocéu, uma lua clara iluminava a fumaça que subia, como que indo ao seu encontro.Ao redor do fogo algumas mulheres, homens e crianças em silêncio contemplavam anoite. A tranqüilidade daquele momento, à luz da lua, ao calor do fogo, eraquebrada pelos sons inquietantes e quase que ininterruptos dos caminhões quetrafegavam pela estrada. À beira de uma rodovia, os barracos de lonas pretasservem de abrigo e lar para a comunidade Guarani Mbyá do Arenal, localizadasobre o barranco da BR-392, na cidade de Santa Maria/RS.

O silêncio naquele início de noite, segunda-feira, 13 de junho de 2011,tinha uma única razão. O luto. Morreu, dois dias depois de nascer, RodrigoMartins. A mãe, Suzana Benites, acometida por uma pneumonia deu a luzprematuramente ao menino. Ela permanece internada em estado grave.

Em 09 de junho de 2011 nasceu mais um Mbya na beira da estrada, debaixode um barraco de lona preta, sob o frio intenso e úmido de outono. No dia 11 dejunho de 2011 ele foi acolhido por Ñhanderu. Foram apenas dois dias vividos.Tempo suficiente para que Rodrigo sentisse no corpo a dor e a angústia de seupovo.

O pequeno Rodrigo veio habitar um mundo doente. Mesmo no ventre de suamãe sofreu, junto com ela, o descaso, a omissão e a negligência do poderpúblico. Ele foi concebido sob o abrigo das lonas e sobre o chão molhado. Lá,no barranco da estrada, sem as mínimas condições de vida, passou sua gestaçãoguardado e amparado pelo ventre da mãe que adoecia. Ela, mesmo doente, o amou esonhou com a possibilidade de que o filho pudesse ter uma vida melhor do que adela e a de seu marido, o Karaí (líder religioso) da comunidade, MarcelinoMartins.

A morte do Rodrigo aconteceu porque os órgãos de assistência,especialmente a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Secretaria Especial deAtenção à Saúde Indígena (SESAI) e a Prefeitura Municipal de Santa Maria,desprezam o povo Guarani. Desprezam o seu modo de ser. Desprezam seus direitoshumanos e constitucionais. Os governos federal, estadual e municipal nãoreconhecem estes direitos. O abandono e a omissão parecem ser parte de umapolítica previamente planejada.

Não é por acaso que este povo vive, resiste e reclama direitos nasmargens de estradas ou em pequenas áreas de terras sem água potável, sem saneamentobásico, sem terra para plantar e produzir seu sustento. E na noite em queSuzana Benites dava a luz a Rodrigo, as lideranças Guarani do Arenalreivindicaram apoio médico, bem como solicitaram uma ambulância. E certamentenão foi por acaso que elas não foram atendidas.

Nada é por acaso numa sociedade preconceituosa e governada porautoridades e políticos igualmente preconceituosos. Nesta sociedade não hálugar para povos e culturas diferentes, pois estes são oposição ao modocapitalista de ser.

O Povo Guarani, assim como os demais povos indígenas, está entreaqueles que os governantes, desde a ditadura militar, gostam de classificarcomo estorvo, penduricalhos ou entraves. É por isso que não se demarcam asterras, não lhes são destinadas políticas públicas adequadas e coerentes. Omáximo que lhes oferecem são esmolas, através de cestas básicas ou as sobras dealguns medicamentos, ou os resquícios de alguma capoeira nas margens de domíniodas estradas e/ou pedaços de lonas pretas. Lonas que na essência da imagem sãocomo que retratos da dor e do sofrimento do Povo Guarani no Rio Grande do Sul.

Nisto se resume a política do Estado Brasileiro para os Guarani Mbya.As condições a que se submetem estes homens, mulheres e crianças, são desumanase inaceitáveis: viver em acampamentos provisórios, desprovidos de tudo o quepode assegurar a vida. E eles seguem vivendo, não por dias ou meses, mas poranos e anos uma situação de desesperadora espera pela ação do poder público,pela constituição de GTs de identificação e delimitação territorial, pelademarcação e garantia das terras. Mas o governo nada faz! Pratica, com isso, umgenocídio lento e gradativo. Desrespeita a dignidade e os direitos humanos, sociais,políticos deste povo já tão ultrajado.

Mas, apesar do Estado e suas estruturas desumanas, a resposta é aresistência. Impressiona aos que convivem com os Guarani Mbya o fato de que,mesmo diante da dor e do sofrimento, eles se apegam à Vida. Sustentam-se nomodo de ser Guarani. Apegam-se a sua cultura, as suas crenças, a sua tradição.Apegam-se a sua religiosidade e rejeitam completamente o modo de ser dos Juruá(brancos).

O que certamente incomoda os governos é constatar que apesar de suaspolíticas e artimanhas os Guarani não desistem de lutar pelos seus direitos. Ecertamente incomoda ainda mais as autoridades o fato de que as lutas Guaraninão são convencionais ou previsíveis, elas são cotidianas, insistentes econtínuas, tal como o seu modo de viver, num contínuo caminhar. Elas são centradasna crença de que há “uma terra sem mal” e que esta deve ser buscada econquistada através do diálogo, da tolerância, da perseverança, não como umautopia, mas como possibilidade real.

Os Guarani do Arenal já apresentaram às autoridades municipais,estaduais e federal um programa de ações para solucionar os problemas a curto,médio e longo prazo. Querem assistência continuada em saúde. Querem também quea Funai crie um grupo de trabalho para proceder aos estudos de identificação edelimitação de uma terra dentro do vasto território Guarani. E desejam aindaque, enquanto isso não acontece, seja destinada uma área para o assentamentodas famílias que vivem em beira de estradas, mas este local precisa oferecercondições adequadas para viver, tendo água potável, casas, saneamento básico,assistência em saúde, educação.

As propostas são simples, viáveis e pouco dispendiosas. No entanto, osentes públicos não esboçaram nenhuma intenção em implementá-las. Ao que parece,a omissão, a negligência ou o mero assistencialismo são os traços marcantes deuma política destinada aos povos indígenas, que se concretiza cruelmente narealidade dos acampamentos à beira de rodovias.

Os barracos de lona parecem sinalizar que as reivindicações dos Guaraninão têm a menor importância e que aexistência deste povo não interessa ao poder público. Também não interessa à sociedade que sequerpercebe a presença deste povo em acampamentos que agora estão como queincorporados à paisagem.

Esta dura realidade ofende não somente o modo de ser dos Guarani Mbya,como também um conjunto de princípios e de direitos, cunhados com suor esangue, para resguardar nossa humanidade. Ao submeter os Guarani Mbya a estacondição desumana, o poder público insinua, em síntese, que não há lugar paraeste povo, num mundo em que a propriedade e a máxima produtividade definem oque conta e o que pode ser descartado. Nega-se assim o direito, nega-se adiferença, nega-se a vida.

Porto Alegre, RS, 17 de junho de 2011.