Lincoln também comprava deputados

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Publicado terça-feira, 20 de outubro de 2015 as 15:00, por: cdb

Por Sheila Sacks, do Rio de Janeiro

Para acabar com a escravidão nos EUA, Lincoln precisou comprar deputados, como se fez no Brasil com o mensalão
Para acabar com a escravidão nos EUA, Lincoln precisou comprar deputados, como se fez no Brasil com o mensalão

“Ao preço médio de 500 dólares cada, a ‘propriedade’ humana dos donos de escravos valia em torno de 2 bilhões de dólares, uma quantia astronômica na década de 1860. Assim, a abolição da escravatura nos Estados Unidos, sem compensações econômicas, se constituiu na maior expropriação de propriedade privada capitalista até a revolução russa de 1917” (Kevin Anderson, sociólogo e escritor)

A compra do apoio de parlamentares do Partido Democrata à causa da abolição da escravatura nos Estados Unidos pontua o enredo que buscou suas fontes históricas no livro de Doris Kearns Goodwin, uma pesquisadora e autora de biografias que trabalhou na Casa Branca de 1967 a 1969, durante a administração do presidente Lyndon Johnson.

O best-seller, que vendeu 1,5 milhão de exemplares quando de seu lançamento em 2005, Team of Rivals: The political Genius of Abraham Lincoln ou, em tradução livre, Equipe de rivais: o gênio político de Abraham Lincoln, inspirou Spielberg a adentrar no pragmático mundo dos jogos políticos e das escaramuças verbais. Nesse cenário, o público acompanha um Lincoln determinado a aprovar, em janeiro de 1865 ao final de seu primeiro mandato, a 13ª emenda que tornava a escravatura inconstitucional; o conflito com o seu núcleo íntimo de assessores de gabinete – a princípio cético em relação à conquista dos votos necessários para a vitória; e o embate com um Congresso dividido e sob pressão de uma guerra civil.

Empenhado em fazer valer a sua vontade, Lincoln apoia uma série de manobras que a ética em seu sentido mais puro certamente condenaria. Parlamentares opositores em fim de mandato e não reeleitos são cooptados para votarem a favor da abolição, com oferta de dinheiro e cargos na administração pública. Uma prática que, passados 147 anos, ocupou as primeiras páginas dos jornais brasileiros por mais de quatro meses naquele que foi o mais midiático julgamento de políticos dos anais da história brasileira: a Ação Penal 470 do Supremo Tribunal Federal (STF). Um processo de 50 mil páginas que demandou quatro anos de investigações, arrolou 600 testemunhas e condenou 25 acusados.

Perdas, sanções e cassação

Spielberg adquiriu os direitos do livro sobre Abraham Lincoln antes mesmo da historiadora Goodwin começar a escrever a obra. Em entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana para o portal UOL, o diretor norte-americano disse que se interessou pelo livro porque a autora abordaria o talento de Lincoln como estrategista político. “Queria evitar a todo custo cair na adoração de Lincoln. Meu objetivo sempre foi abordar Lincoln como um homem, e não como um monumento”, explicou.

Por uma dessas coincidências interessantes, em 2005, quando da publicação do livro de Goodwin que revelava as estratégias políticas pouco ortodoxas praticadas por Lincoln com o intuito de emplacar a 13ª emenda, a Folha de S.Paulo estampava uma denúncia sobre a distribuição de dinheiro a congressistas assinada por Renata Lo Prete. Na entrevista à jornalista, publicada em 6 de junho, o então deputado federal Roberto Jefferson, líder do PTB, afirmava que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava um “mensalão” a parlamentares em troca de apoio no Congresso. Uma mesada de R$ 30 mil distribuída a representantes de partidos da base aliada.

Sete anos depois, o procurador-geral da República Roberto Gurgel, em sua exposição no STF, repetia o conhecido bordão “os fins não justificam os meios” e requeria a prisão dos envolvidos com o suposto “esquema do mensalão” – alguns deles do núcleo de assessores do gabinete da Presidência, outros com mandatos parlamentares. Assegurando que houve grande movimentação de recursos antes de votações importantes para o executivo, como as das reformas tributária e previdenciária, em 2003, no primeiro governo do presidente Lula, o procurador pediu perdas de cargo, sanções patrimoniais (devolução de dinheiro) e cassação de eventuais aposentadorias. “Altas autoridades devem servir de paradigma para a sociedade”, justificou, sublinhando que o caso “maculou gravemente a República” (“Gurgel pede condenação de 36 réus e prisões no final do julgamento” – O Globo em 03.08.2012).

Prova de liderança

Em contraposição às penalidades da Justiça e ao linchamento midiático sofrido pelos acusados do mensalão, o aliciamento e o suborno praticados pelo presidente Lincoln e seu grupo de assessores nos bastidores da votação da emenda abolicionista apresentados no filme de Spielberg não foram objetos de repúdio nem de condenação penal. Para a historiadora e professora da escola de administração da Universidade de Harvard, Nancy F.Kohen, a atuação de Lincoln ensina muito sobre como conduzir uma empresa na economia de hoje. Em artigo para o New York Times (“Lincoln: uma aula de administração”, em tradução livre) ela ressalta que o filme, ao acompanhar os esforços de Lincoln para aprovar a 13ª emenda, oferece uma prova de sua liderança. E cita dois exemplos de virtudes do 16º presidente norte-americano: ter uma meta e persistir em sua obtenção e ser flexível quando necessário.

Essas qualidades, portanto, englobariam até estratégias variadas de atrair votos oferecendo vantagens, como de fato aconteceu sob o comando de Lincoln, sem que os estratagemas despertassem possíveis condenações e prisões, talvez em virtude da grandeza e importância moral da missão. As negociatas, barganhas e compra de votos são tratadas pelos críticos de cinema em suas apreciações na mídia nacional como “um complexo processo de negociações”, “articulações políticas” e “táticas para abolir a escravatura e pôr fim à Guerra Civil nos EUA”.

O filme também mereceu a atenção do jornalista Elio Gaspari, que escreveu: “Spielberg fez seu filme tratando das poucas semanas durante as quais Lincoln dobrou a Câmara dos Deputados, aprovou a 13ª emenda à Constituição e acabou com a escravidão nos Estados Unidos” (“A festa de Abraham Lincoln” – Folha de S.Paulo, em 27/1/2013). O verbo dobrar aí entendido como “domar”, “vergar”, “vencer”.

Lado errado da história

Curiosamente, o único questionamento à história envolveu o roteirista e dramaturgo Tony Kushner, ganhador do prêmio Pulitzer pela peça teatral Angels in America e coautor do roteiro de Munique (2005), também filmado por Spielberg. Ele foi acusado de erro histórico por um representante de Connecticut, o democrata Joe Courtney, que lamentou a cena em que dois congressistas de seu estado votam contra a abolição da escravatura. “Como parlamentares de Connecticut — um estado que apoiou o presidente Lincoln e perdeu milhares de seus filhos lutando contra a escravidão ao lado da União na Guerra Civil — poderiam estar do lado errado da história?”, protestou Courtney. Uma falha que levou o roteirista de Lincoln a se desculpar publicamente. Afinal, quem em sã consciência quer ficar do lado errado da história?

No artigo “O Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana”, o escritor e professor de sociologia e ciências políticas na Universidade da Califórnia Kevin Anderson lembra que, com a libertação dos escravos nos Estados Unidos, cerca de quatro milhões de negros, 13% da população do país, foram alçados ao patamar de homens livres e a façanha de Lincoln foi alvo dos cumprimentos do filósofo alemão Karl Marx, que meses antes havia enviado uma carta pública em nome da recém-fundada Associação Internacional dos Trabalhadores de Londres (a primeira Internacional Socialista) ao presidente republicano, parabenizando-o pela reeleição e “a morte da escravatura”.

No caso brasileiro, talvez o autor de O Capital, se vivo fosse, também já teria despachado um e-mail de congratulações ao presidente Lula extensivo a seus assessores diretos pelas ações ensejadas a partir de seu primeiro mandato para libertar do jugo imoral da miséria 16,5 milhões de brasileiros, custasse o que custasse. E registre-se que em setembro de 2012 as “mesadas” do Bolsa Família já atendiam 13,7 milhões de famílias, com um valor médio de 150 reais e podendo chegar até 306 reais, de acordo com o número de filhos menores e em idade escolar.

No mais: estudo recente do Banco Mundial (04.02.2013) apontou o trabalho como o fator que mais contribuiu para que as pessoas saíssem da pobreza extrema no Brasil com o aumento de seus rendimentos: 52% contra 32% que melhoraram seu nível de vida com o Bolsa Família. Ficando os 16% restantes por conta dos jovens que se iniciaram no mercado de trabalho e passaram a colaborar na renda familiar. Uma vitória social, sem guerras nem derramamento de sangue, que Lincoln aplaudiria de pé.

Sheila Sacks, jornalista formada pela PUC-RJ sempre trabalhou em assessoria de imprensa.Tem artigos publicados nos sites Observatório da Imprensa e Rio Total. Desde 2009 mantém o blog “Viajantes do tempo”.

Direto da Redação é um fórum de debates, publicado diariamente, editado pelo jornalista Rui Martins.