Líderes e programas

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Publicado domingo, 23 de novembro de 2003 as 21:06, por: cdb

Mesmo os sistemas democráticos mais abertos reclamam a liderança política. O melhor líder é aquele que, realmente, e não no verbo demagógico, assume a vontade popular como sendo sua e, servidor dela, conduz os esforços de todos para que essa vontade se realize, dentro da possibilidade histórica.

O Brasil está vivendo uma crise de lideranças. Lula, que é um dirigente autêntico, sofre o natural desgaste como chefe de um governo heterogêneo, dividido entre correntes ideológicas diferenciadas e interesses conflitantes. Em todos os partidos se identifica o envelhecimento dos chefes e o surgimento de quem os conteste, e certo esmorecimento nos partidos ideológicos.

O PFL, que poderia se beneficiar da vicissitude da oposição, que costuma cimentar as organizações políticas, está vivendo uma dessas crises. Um dos mais antigos homens públicos em atividade, o senador Antonio Carlos Magalhães é também portador de polêmica biografia política. Ele retorna agora ao proscênio, no confronto com o senador Jorge Bornhausen. São temperamentos bem diferentes. O senador baiano se diz movido pela paixão porque, em seu entendimento, política é paixão. Bornhausen, de ascendência germânica, é aparentemente mais frio. Seria, no entanto, ingenuidade imaginar que o conflito tenha surgido da acusação recente de má utilização dos recursos do Fundo Partidário do partido. Silenciosa, mas nem por isso menos militante, nem menos antiga, é a oposição a Antonio Carlos dentro de seu partido. Discreta, desde que contida pelo seu temperamento mais mineiro do que pernambucano, é a posição do Sr. Marco Maciel, mas não há dúvida de que ele não reza pelo mesmo missal de seu colega da Bahia. A Bornhausen, que se alinhara mais ao governo Fernando Henrique do que qualquer outro pefelista, sempre molestara o comportamento do ex-governador da Bahia. E, em conseqüência de razões paroquiais, Antonio Carlos vem assistindo a defecções entre os seus mais próximos correligionários.

Mas não é só no PFL que as coisas marcham sem ordem unida. O PPS – essa usurpação da herança ideológica do Partidão – assiste ao crescente descompasso entre o Sr. Roberto Freire e o ministro Ciro Gomes. No PSB, das mais antigas e coerentes siglas partidárias, nascida da Esquerda Democrática da UDN, e fundada por figuras emblemáticas da vida política nacional, como João Mangabeira e Domingos Velasco, a liderança do Sr. Miguel Arraes já se encontra ameaçada pela aspiração do governador Ronaldo Lessa, de Alagoas. O PMDB nem esse problema tem, tal a dispersão de autoridade política na legenda. Com Paes de Andrade e Itamar Franco no exercício de cargos diplomáticos, a sigla se encontra à deriva, talvez aguardando o momento melhor de se definir – e só se definirá em convenção realmente democrática, que lhe tem sido, até agora, negada pela ala “pragmática” do partido desde o encontro nacional que impediu a candidatura do ex-presidente à sucessão de Fernando Henrique.

O PCdoB, uma das últimas esperanças da esquerda, está em crise, a partir da punição do melhor de seus quadros, o deputado Sérgio Miranda, por ele se haver negado a apoiar a reforma da Previdência e dissentido de certos artigos da reforma tributária.
Confusos por uma guinada ideológica inesperada, os petistas de convicções mais arraigadas oscilam entre Scylla e Caribdes: entre o pragmatismo dos que governam e a esperança dos que militam.

São essas algumas das razões que solicitam urgente reforma político-partidária no Brasil. Os partidos têm que expressar correntes definidas de opinião ideológica em seus programas e prever normas que disciplinem o seu cumprimento nas votações parlamentares. Os representantes populares não podem estar obrigados ao mandato imperativo, que seria a violação de seu fundamental direito à liberdade de consciência, mas devem, sem prejuízo dessa liberdade, subordinar-se, quer em funções públicas, quer na direção partidária, aos programas doutrinários. Insatisfeitos com o programa,