Lições de tortura “made in China”

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Publicado segunda-feira, 20 de junho de 2011 as 10:28, por: cdb

O mais duro que se observa é o tormento psicológico que revelam os trabalhadores

20/06/2011

 

Miriam Márquez

Periodismo Humano

 

 “Deixam cair objetos de propósito para serem tirados, ainda que seja só um segundo, da cadeia de montagem. Permanecer tanto tempo em pé lhes causa dores nas pernas e câimbras nos joelhos. Preferem uma dura repreensão em troca de um instante de descanso”. Mostra um estudo finalizado pela SACOM, uma organização não-governamental que durante meses se dedicou a analisar as condições trabalhistas na China na empresa Foxconn. Esta gigantesca companhia fabrica componentes para empresas globais como Apple, Nokia, Dell, Sony, Nintendo, Motorola, etc… E o fazem recorrendo a uma estratégia low cost [baixo custo] que submete os trabalhadores a pressões que vieram em parte à luz depois do suicídio de ao menos 11 deles em 2010, um escândalo que é descrito com detalhe em artigo de Xosé Alberte.

Meses depois do auge da notícia e das promessas de mudança da companhia, as 120 entrevistas realizadas pela SACOM com trabalhadores de três fábricas revelam um panorama ainda mais obscuro. “Os trabalhadores, agora com mais motivo, tem medo de falar da Foxconn com os pesquisadores e com os jornalistas estrangeiros”, conta Debby Chan, um dos responsáveis pelo estudo. A difusão na imprensa das más condições tem feito com que todos eles tenham que assinar cláusulas nas quais prometem que não revelarão nenhum detalhe sobre suas condições de trabalho. Nelas, inclusive, eximem de qualquer tipo de responsabilidade a empresa no caso de terem a “desafortunada” ideia de suicidar-se. Algo que não lhes é muito fácil, porque em várias fábricas continuam nos dias de hoje empregadas lonas nos exteriores dos dormitórios coletivos para evitar que os funcionários pulem pelas janelas. O objetivo é que, se o fizerem, deduz a SACOM, ao menos não seja em nenhuma das instalações relacionadas com a Foxconn.

O mais duro que se observa, contudo, das entrevistas realizadas pela SACOM e China Labour Bulletin é o tormento psicológico que revelam os trabalhadores. “Surpreende que quando fazem uma pausa depois de uma longa jornada de pé ante a mesa de montagem estão demasiadamente exaustos para falar uns com os outros”, explica Chan. Em vez de relacionar-se, descrevem os pesquisadores, preferem sentar-se em silêncio ao longo de uma cerca da fábrica e permanecer imersos em seus pensamentos olhando seus telefones ou para o chão. O problema é que a maioria dos companheiros que os rodeiam, explicam, são verdadeiros desconhecidos. As longas jornadas e os três turnos diários estão planejados de forma que os operários permaneçam nos dormitórios de até seis pessoas só para dormir e às vezes nem sequer isto.

Apesar da exaustão, a política salarial está tão habilmente planejada que os trabalhadores considerem as jornadas regulamentares um verdadeiro malefício porque cobram menos. “O pagamento que recebo por um turno de oito horas não é suficiente para viver. Espero que este horário seja só uma medida temporária por estarmos em baixa temporada”, conta uma garota de 19 anos que trabalha produzindo I-Phones na fábrica de Guanlan. Em ocasiões, revela o informe, há trabalhadores que se negam a fazer turnos com mais de quatro horas extras diárias por estar totalmente exaustos ou sentir-se indispostos. A resposta de Foxconn tem sido impor-lhes uma jornada de oito horas diárias contínua, de modo que o salário não lhes chegava sequer para pagar seu alojamento no dormitório coletivo, sua comida e seu seguro médico. As súplicas não atendidas deste grupo de “privilegiados” para voltar a serem explorados tem sido a melhor medicina contra o esgotamento do restante.

Outras das marcas que se verificam nos informes mencionados é o caráter militar que se impõe aos trabalhadores já desde seu treinamento inicial. Está proibido falar em todas as cadeias de montagem e há respostas pré-determinadas para quando for dirigir-se aos superiores. Se os trabalhadores desejam ir ao banheiro têm que esperar que seus coordenadores lhes concedam um cartão onde se indica a permissão especial. Às vezes têm que fazer acordo entre 20 e 60 trabalhadores para compartilhar a vez de usar o cartão.

Os operários estão obrigados a apresentar-se em seu posto de trabalho até quarenta e cinco minutos antes do começo de sua jornada para reuniões que, obviamente, não são remuneradas. Além disso, têm que fazer fila para entrar no ônibus que os leva até a fábrica, para entrar na cantina onde comem e para o registro da entrada, onde se asseguram que não entrem com celulares, tanto se têm câmera como se não tem. As filas são consideradas nesta estratégia empresarial, uma forma a mais de conseguir a submissão como principal virtude trabalhista. E isso apesar das dores nas pernas causadas por passarem mais de 14 horas diárias de pé, junto com as provocadas pela toxicidade dos materiais utilizados, é a principal causa de lesões entre os operários de Foxconn.

Como fazer para ajudar nesta situação? Algumas das grandes perguntas estão já refletidas em artigo de Juan Luis Sánchez que gostaria de lembrar. Talvez a difusão implacável destas informações seja a chave para conseguir que a publicidade negativa se torne pouco rentável no longo prazo para as grandes marcas de telefonia e computadores. Também quero recordar que a ONG SETEM é uma das que estão empenhadas em conseguir com suas campanhas que a compra de tecnologia seja a mais ética possível.