Levante Popular ‘esculacha’ militar que comandava sessões de tortura

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Publicado sábado, 20 de outubro de 2012 as 15:42, por: cdb

Levante Popular ‘esculacha’ militar que comandava sessões de tortura

Alvo desta vez foi capitão que teria sido um dos torturados ‘mais furiosos’ do período da ditadura

Por: Elaine Patricia Cruz, da Agência Brasil

Publicado em 20/10/2012, 18:35

Última atualização às 18:35

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Mulher segura cartaz com a foto do militante Virgílio Gomes da Silva, uma das vítimas do capitão (Foto: Marcelo Camargo)

SãoPaulo – Movimentos sociais, liderados pelo Levante Popular da Juventude,fizeram hoje (20), na região da Avenida Paulista, no centro de São Paulo, umamanifestação para expor publicamente um ex-militar reformado acusado de tercomandado sessões de tortura e homicídios durante a ditadura militar. O tipo demanifestação é inspirada em ações similares feitas na Argentina e no Chilechamadas de Escracho.

Cerca de 60 pessoas, segundo a Polícia Militar, fizeram umapequena caminhada pela Avenida Paulista até a Rua Manoel da Nóbrega, endereçoonde vive atualmente o ex-militar Homero César Machado, que chefiou equipes deinterrogatório no antigo DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações -Centro de Operações de Defesa Interna) entre os anos de 1969 e 1974.

“O que fazemos aqui é reivindicar a memória das pessoas quelutaram contra a ditadura militar e também reivindicar o presente, porque hojevemos esses torturadores impunes. Esse torturador [Machado] vive tranquilo emsua casa, não foi julgado e nem condenado, vive com aposentadoria paga comdinheiro público. O que ficou impune na ditadura dá carta branca para que essescrimes continuem acontecendo”, disse Paula Sacchetta, da Frente de EsculachoPopular.

Durante a caminhada, manifestantes colaram, em postes e latas delixo, cartazes com fotos de pessoas que teriam sido torturadas por Machado naépoca da ditadura militar e distribuíram folhetos para a população informandoque “um torturador mora neste bairro”.

A frentedo prédio onde Machado mora, familiares de Virgílio Gomes da Silva, que foimorto e torturado durante a ditadura militar, seguraram um megafone para dizeraos vizinhos que ali “mora um torturador”. Uma coroa de flores foi depositadaem frente ao prédio e gritos e faixas lembravam um dos lemas do movimento: “Senão há Justiça, há esculacho popular”. 

A viúva de Virgílio Gomes da Silva, Ilda Martins da Silva,acompanhou a manifestação de hoje com seu filho, Virgílio Gomes da Silva Filhoe uma neta. “Ele [Virgílio Gomes da Silva] foi morto e torturado [na ditaduramilitar] e está desaparecido há 42 anos”, disse ela. Ilda foi presa no diaseguinte com três de seus quatro filhos.

“Quando eu fui presa, ele já estava morto. E eu não sabia. Fiqueipresa com meus três filhos. Levaram eles para o Dops e, de lá, para um juizado.Ofereceram eles [meus filhos] para doação. Fiquei presa por nove meses, quatrodeles incomunicável, sem poder ver meus filhos. Fui torturada tanto fisicamentequanto psicologicamente”, disse.

O filho de Virgílio tinha 6 anos na época. “O que sabemos sãorelatos de companheiros que estavam presos na época. Sabemos que no dia 29 desetembro de 1969, ele foi preso numa emboscada. Levaram ele para o Dops[Departamento de Ordem Política e Social] e bastaram seis horas de tortura paraconseguirem matá-lo”, disse Silva Filho. Segundo ele, Homero César Machado foium dos torturadores de seu pai.

A família de Vírgilio Gomes da Silva disse esperar pela condenaçãojudicial dos torturadores da época. “Espero sim [condenação]. Não importa otempo que dure para a justiça chegar”, disse o filho.

Manifestante durante o protesto em frente à casa do militar (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

O atochamou a atenção de vários moradores da região. Vários deles apenas espreitavama manifestação pela janela, mas alguns desceram de seus apartamentos para sabero que estava ocorrendo. “Cumprimento o cara [Machado] há anos e nunca imaginei.Fiquei com nojo. Quando vi as fotos [dos torturados estampadas nos cartazes] eli as histórias, fiquei mesmo revoltada”, disse Sandra Gaui, moradora de umprédio próximo.

“Acho esses escrachos fundamentais porque, não é coisa dosatingidos ou das famílias. É coisa da sociedade, principalmente de jovens queabraçaram essa causa. É um pessoal que diz que a violência policial de hoje éfruto do passado e que os desaparecidos precisam ser localizados para se acabarcom a impunidade”, disse Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos eDesaparecidos.

Segundo Seixas, o capitão Homero “era um dos militares maisfuriosos nas torturas”. Para ele, movimentos como esse contribuem para se fazeruma condenação moral dos torturadores, enquanto a condenação judicial ainda nãoocorreu.

A AgênciaBrasil nãoconseguiu falar com Machado. Um dos funcionários do prédio informou que Machadonão estava no local no momento do ato. Uma vizinha de apartamento disse que há15 dias ele não se encontra no prédio. “Ele sempre foi muito gentil e educado.Até tomei um susto agora com essas informações. Ele não está aí. Ascorrespondências dele estão na mesinha do lado do nosso corredor”, disseFernanda Teixeira de Carvalho Souza.