Leão de Ouro é disputado por feras em Veneza

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Publicado quinta-feira, 2 de setembro de 2004 as 15:30, por: cdb

É impressionante a qualidade da lista de cineastas que vão concorrer ao Leão de Ouro no 610 Festival de Veneza. E mais ainda a dos que vão mostrar seus filmes fora de competição. Um dos três maiores eventos do gênero no mundo, ao lado de Cannes e Berlim, o festival tem início nesta quarta-feira – e vai até o dia 11 – com a exibição hors-concours de O Terminal, novo filme de Steven Spielberg, com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. E reúne, nas duas mostras principais, praticamente todas as vertentes do bom cinema contemporâneo. Estão lá desde militantes como Amos Gitai até estetas como Todd Solondz, passando pelos veteranos Manoel de Oliveira e Michelangelo Antonioni.

Veneza também confirma, este ano, algo que já se desconfiava há algum tempo: a cinematografia latino-americana mais prestigiada na Europa é a argentina, mesmo sem nenhum filme presente nas duas mostras principais. Estarão, na mostra paralela Orizzonti, os longas Un Mundo Menos Peor (Alejandro Agresti) e Familia Rodante (Pablo Tapero), além de Parapalos (Ana Poliak) na seleção Cinema Digitale. O subcontinente comparece ainda com o colombiano Perder es Cuestión de Método (Sergio Cabrera), na mostra Mezzanotte, e só. Nenhuma produção brasileira marcará presença em Veneza.

Com três filmes cada, França, Estados Unidos e Itália (a prata da casa, como de praxe, é prestigiada) são os países mais bem representados na mostra competitiva, que reúne um total de 21 produções. Os holofotes recaem, inevitavelmente, sobre os novos trabalhos de feras como o inglês Mike Leigh (Vera Drake), o alemão Wim Wenders (que volta à ativa com Land of Plenty), e o japonês Hayao Miyazaki (Howl’s Moving Castle), além dos já citados Amos Gitai (Promised Land) e Todd Solondz (Palindromes).

O judeu Gitai é um daqueles cineastas necessários em tempos sombrios como o que vivemos. Seu cinema é árido e reflexivo, e costuma captar com sensibilidade o conflito entre israelenses e palestinos. A praia de Solondz é bem menos política e bem mais formal. Autor de trabalhos que causam certa estranheza, como Histórias Proibidas e Bem-vindo à Casa de Bonecas, ele é um dos poucos sopros de vigor presentes no cinema norte-americano atual. Há outros bons jovens autores, como a indiana Mira Nair (Vanity Fair) que se tornou conhecida após o sucesso da comédia Casamento à Indiana, o norte-americano Jonathan Glazer (Birth), o chileno Alejandro Amenábar (Mar adentro), diretor do thriller Os Outros, e o enfant terrible francês François Ozon (5 x 2), de Sob a Areia, Oito Mulheres e Swimming Pool.

Trata-se de uma relação que, ao menos aparentemente, vai causar problemas ao júri do festival, presidido pelo diretor inglês John Boorman e formado, entre outros, por gente como o diretor Wolfgang Becker (Adeus Lenin), a atriz Scarlett Johansson (Encontros e Desencontros) e o cineasta Spike Lee, que exibe seu novo trabalho, She Hate Me, fora de competição. Junto com ele, vão marcar presença em Veneza nomes do porte de Claude Chabrol (La Demoiselle d’honneur), Michael Mann (com Colateral, em cartaz na cidade), Manoel de Oliveira (O quinto império) e o talentosíssimo Marc Forster (Finding Neverland).

A mostra não-competitiva também pode marcar a volta de Jonathan Demme ao primeiro time do cinema norte-americano. Mas só se seu novo trabalho, o libelo anti-Bush Son o Domínio do Mal, obtiver o êxito de público e crítica que dele se espera. Demme, para quem não lembra, dirigiu o hoje clássico O Silêncio dos Inocentes (1991) e em seguida o sucesso Filadélfia (1993), e andava há um bom tempo freqüentando o ostracismo.

Merece destaque, ainda, a trilogia Eros, projeto que reuniu o gênio veterano Michelangelo Antonioni e mais Steven Soderbergh (de Traffic e Solaris) e Wong Kar-Wai (do belo Amor à Flor da Pele). Só po