Le Pen propõe “campos de trânsito” para imigrantes

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Publicado sexta-feira, 26 de abril de 2002 as 00:51, por: cdb

Isolado pelas demais forças políticas de direita e esquerda que recomendam o voto em Jacques Chirac no segundo turno das eleições presidenciais francesas, no dia 5, o candidato da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, está lançando apelos insistentes aos abstencionistas do primeiro turno (28%) e aos decepcionados do Partido Comunista. Le Pen, da Frente Nacional (FN), foi o mais votado no primeiro turno, no último domingo, pelo eleitorado popular e os operários em diversas regiões que tradicionalmente votavam na esquerda, o que explica também a baixa votação dos comunistas, apenas 3,3%.

Le Pen faz campanha para o segundo turno dando preferência à televisão em lugar de comícios públicos, nos quais teme ser alvo de manifestações hostis. Um de seus poucos comícios será em Marselha, onde derrotou Chirac e Jospin. Ele diz ser o candidato do povo contra o candidato do sistema, defendendo teses ousadas que o diferenciam dos representantes dos partidos tradicionais.

Campos de trânsito e referendos
Entre essas teses está a construção de “campos de trânsito”, onde estrangeiros sem emprego e documentos aguardariam, segundo ele “mais ou menos confortavelmente”, o momento de serem enviados de volta para seus países.

Nesta quinta-feira, Le Pen afirmou que pretende acabar com “a paralisação das instituições pelos lobbies”, propondo uma política de referendos, pela qual transferiria para o povo a decisão final sobre alguns grandes temas da sociedade. Por essa razão está propondo cinco consultas, uma por ano de mandato, transformando a França numa “república referendária”.

Abandono da UE
O primeiro seria a votação de um projeto de lei autorizando a França a se afastar do processo de integração européia e restabelecer o franco como moeda nacional. A França abandonaria a zona do euro e o Tratado de Maastricht.

Desta forma, ele espera recuperar a contribuição francesa à União Européia, estimada em cerca de US$ 90 bilhões por ano. Em compensação, o agricultor francês deixaria de receber subsídios de Bruxelas, que hoje representam 25% de sua renda.

Prioridade para franceses
Le Pen pretende inserir o princípio de “preferência nacional” (prioridade de emprego para o trabalhador francês) como primeiro artigo da Constituição, submetendo ainda à aprovação popular a suspensão e mesmo inversão dos fluxos migratórios. Isso permitiria a expulsão dos trabalhadores imigrantes e dos clandestinos para seus países de origem.

Ele admitiu explicitamente, caso seja necessária, “a construção de campos de trânsito, onde eles poderão aguardar o momento da volta”. Informado que o número desses imigrantes sem emprego e sem papéis poderá atingir 500 mil, Le Pen garantiu que dará “um tratamento humano” a todos, mas reafirmou que “os trabalhadores franceses devem ter prioridade na disputa do emprego”.

Pena de morte
Além desse projeto, que dá frio na espinha de muita gente, Le Pen defende o restabelecimento da pena de morte para os crimes mais graves e afirma o direito do governo de decretar o estado de urgência para restabelecer “a segurança e a paz civil”. Trata-se de um cheque em branco num país que já conta com um dispositivo constitucional, o artigo 16, que prevê medidas para situações insurrecionais excepcionais.

Impostos
Afirmando-se “economicamente à direita”, ele propõe limitar a 35% a carga tributária francesa, atualmente da ordem de 45%, mas não explica como poderá financiar essa medida. Ainda no campo fiscal, ele promete suprimir o imposto sobre sucessão em linha direta e o próprio imposto sobre a renda. Os cerca de US$ 45 bilhões que o país deixaria de arrecadar seriam compensados, mas essa soma corresponde a 4 pontos do PIB.

Le Pen está virando as costas para o liberalismo econômico, propondo uma renegociação dos acordos comerciais da França, um “novo protecionismo”, pois pretende limitar os efeitos da concorrência econômica internacional sobre as empresas. Em suma, ele preconiza uma França voltada para si própria.

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