Laranjeira Nhanderu: mais um despejo decretado

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Publicado quinta-feira, 22 de setembro de 2011 as 12:17, por: cdb

“E como se meucoração saltasse fora do peito. Assim é minha dor quando falam que vamos denovo ser despejados”. Essa expressão de Faride, lideranças Kaiowá-Guarani, demonstraa situação de aflição, angústia e revolta com que a comunidade recebe mais umasentença do despejo. Eufemisticamente fazem crer que a “transferência forçada”,para um inóspito cantinho de terra do DNIT, às margens da rodovia 163. É maisuma ação ignominiosa, somada às atitudes genocidas que vem sendo perpetradascom esse povo.

Dourando a pílula

Acínica forma de oficiar mais esse despejo, remetendo a responsabilidade damesma à Funai, é dourar a pílula, lavando as mãos diante de mais uma cruelviolência e afronta aos direitos constitucionais e legislação internacional daqual o Brasil é signatário, que garantem aos povos indígenas o reconhecimentode suas terras.. A lei 6.001 de 1973 já determinava que o governo brasileiroseria obrigado a demarcar as terras indígenas dentro de cinco anos. Mais de 30 anosde sofrimento se passaram. E para reforçar essa obrigação do Estado, aConstituição de 1988 novamente dá um prazo de cinco anos para que o governodemarque todas as terras indígenas. Vão-se mais de 20 anos e os Kaiowá Guaraninão tiveram a maioria de suas terras sequer identificadas.

Cabe mais uma vez apergunta: a quem interessa essa afronta aos direitos, responsável porintermináveis conflitos, insuportável sofrimento, e inúmeros assassinatos delideranças desse povo?

Aflição e dor

Juízesdecidiram a expulsão, a Funai já recebeu a intimação, e o prazo para execuçãoda mesma expira hoje, dia 21 de setembro. Quando a primavera se anuncia, comela também chegam os decretos de aflição. Na mente e no coração dos 150indígenas que estão num pequeno pedaço de área de proteção ambiental, à beirado rio Brilhante, passam as cenas de um ano e meio que viveram à beira da estrada.Nesse período tiveram três de seus membros mortos por atropelamento, perdendoinúmeros animais de criação esmagados pelos pesados veículos da rodovia, seusbarracos alagados. Enfim, uma ladainha de sofrimentos que querem repetir.

Arealidade vivida por essa comunidade a beira da estrada foi conhecida, pelaCDDP Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humano, Pelo Secretário Geral daCNBB, Survival, Anistia Internacional, dentre outro.

Enquantoa presidente Dilma faz a abertura solene de mais uma sessão das Nações Unidas –ONU, provavelmente não estará sentido a angustia e sofrimento da comunidadeKaiowá Guarani de Laranjeira Nhanderu e da maioria desse povo que não tem suasterras reconhecidas e demarcadas.

Enquantoo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) se empenha em contribuir com a soluçãodefinitiva das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, os despejos vão nacontramão dessa iniciativa.

O queeles querem é apenas permanecer no local em que se encontram até que osrelatórios de identificação sejam concluídos e eles possam viver em paz. Que aFunai cumpra sua obrigação de publicar o quanto antes os relatórios deidentificação e desta forma tenha uma solução definitiva dessa situação.

Umafaixa de solidariedade aos Kaiowá-Guarani, em setembro de 2009 dizia “Terra é Vida,Despejo é Morte”. Essa comunidade precisa do apoio e solidariedade de todas aspessoas de boa vontade no Brasil e no mundo.

PovoGuarani Grande Povo
Dourados,21 de setembro de 2011