Laicidade, positivismo e emigrantes

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Publicado domingo, 7 de fevereiro de 2010 as 22:27, por: cdb

O governo deve entregar aos grupos religiosos certos setores de sua responsabilidade, imaginando que com o espírito de filantropia e a conhecida dedicação e bondade farão melhor que os funcionários do Estado?

Imaginem se o governo Lula em atenção ao vice-presidente, entregasse tudo quanto se refere aos emigrantes para o bispo Edir Macedo resolver. É claro que, a partir daí, não haveria mais necessidade da TV Brasil continuar distribuindo seu questionário sobre programas preferidos aos emigrantes de todo mundo. A TV Record, num ato de boa vontade, tornaria também gratuitos seus programas captados no exterior pelos emigrantes e aproveitaria para difundir a boa palavra.

Digamos que com tal apoio governamental, o bispo Macedo criasse uma Ong, que poderia se chamar digamos Instituto da Universalidade e que esse instituto patrocinasse seminários, encontros e conferências internacionais de emigrantes, que, diante de tanta boa vontade, criariam uma network reunindo todas as associações de emigrantes do mundo. E que essa tal network publicasse documentos e teses reunidas em livros editados pelo Instituto da Universalidade com o apoio da Funag.

É claro que os católicos ficariam chocados e mais que eles todos os brasileiros defensores da nossa bandeira positivista, calcada em cima de Augusto Comte, sem se falar nos marxistas e nessa minoria mais mal vista que são os gays e os ateus.

E o que dizer do Papa Bento XVI que, sem ser chamado, meteu o nariz numa questão de acordos laborais na Inglaterra abolindo todos os preconceitos e instituindo condições iguais para todos, inclusive para os gays ? Afinal, devemos aceitar ou não a participação das religiões na sociedade civil ? Claro que sim, faz parte da nossa sociedade democrática garantir o direito de culto e de ação e de pregação a todas as religiões.

Exceto, é claro, existem sempre exceções, se quiserem instituir no lugar do antigo espetáculo do pelourinho, o da lapidação ou apredejamento das mulheres suspeitas de adultério. Exceto se os fundamentalistas muçulmanos quiserem obter o direito de aplicar no Brasil, nas suas comunidades a charia, e decepar as mãos de ladrões e masturbadores, mesmo se o arcebispo de Canterbury dissesse aceitar as leis das comunidades religiosas.

O presidente francês Nicolas Sarkozy, quando esteve com o Papa, falou em se aplicar a laicidade positiva como se houvesse uma laicidade negativa. E a reintrodução do ensino da religião católica nas escolas brasileiras, como prevê o recente acordo com o Vaticano, seria uma mostra do laicismo positivo dado pelo governo brasileiro, na pessoa do artífice desse acordo, o nosso excelente ministro Celso Amorim.

Para quem tem horror de conversa codificada e não entende o que se quer dizer com laicidade, trocamos em miúdos – é a separação entre o poder temporal, o Estado, e o dos que dizem ter poder divino, as religiões. Isso não quer dizer que as religiões são ruins, acredito haver boas religiões. É para se garantir a todos os cidadãos o livre exercício do seu culto, caso contrário uma religião dominante iria impedir ou criar dificuldades para as outras (como fazem os ortodoxos no Leste ou os muçulmanos nos países árabes) ou de não ter culto. Sem querer fazer trocadilho, o culto da laicidade vem do Iluminismo francês, inspirador dos positivistas e por tabela do materialismo dos marxistas.

Ora, o bispo Edir Macedo não assumiu o protetorado da emigração no Brasil, era só um exemplo. Essa área continua sendo dos que chegaram primeiro aqui na terra tupi e já está portanto ocupada. O único problema vem do fato do governo participar desse missionarismo, numa quebra de um preceito criado pela nossa República, o da laicidade. E isso sem provocar o rebu que teria provocado uma aliança com o bispo Edir Macedo, deixando-me numa inconfortável situação de ser o único a dar o berro.

Enfim, o espaço é curto e o assunto longo, dando oportunidade a outras colunas sob ângulos diversos. Mas para vocês que não são emigrantes, como lhes soaria saber que o princípio da laicidade positiva vem sendo aplicado pelo MRE em relação aos movimentos emigrantes ? E até uma próxima porque não faltará oportunidade.

Rui Martins é jornalista.