Juca Ferreira para Secretaria de Cultura paulistana divide opiniões

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Publicado terça-feira, 11 de dezembro de 2012 as 07:30, por: cdb

A nomeação, pelo prefeito eleito Fernando Haddad (PT), do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira para comandar a secretaria municipal da área a partir de 1º de janeiro foi considerada muito positiva por parte da comunidade cultural da capital e preocupante por outra.

Pablo Capilé, fundador do coletivo Fora do Eixo, está entre os primeiros. “Excelente, melhor nome impossível”, avalia. “Como secretário-executivo da gestão de Gilberto Gil (2003-2008) e sucessor de Gil, ele mostrou que tem capacidade. Tem também muita gente boa no entorno dele”, opina.

Para Capilé, as ligações do novo secretário com o governo federal e seu conhecimento da área vão catalisar as relações culturais na cidade. “Ele vai conectar São Paulo com o Brasil. Entende a diversidade como matéria-prima da cultura, entende o sistema de redes, os conselhos participativos. Juca tem também capacidade democrática, não vai represar as manifestações”, diz Capilé.

Mas não há unanimidade em torno do futuro secretário. Para o ator e diretor teatral Marcos Pavanelli, do Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo, a expectativa é de suspense. “Estou preocupado. Nem otimista, nem pessimista. O projeto dele no Ministério da Cultura era de reformar a Lei Rouanet. Temos muitas críticas à lei. Mesmo com a reforma proposta por ele, não nos contempla”, diz Pavanelli.  “Não concordamos com financiamento privado com dinheiro público, já que ficamos à mercê da arte como mercadoria, e não acreditamos nisso”, explica.

Pavanelli, associado à Cooperativa Paulista de São Paulo, ao Movimento de Teatro de Rua de São Paulo e à Rede Brasileira de Teatro de Rua, diz esperar que Juca Ferreira “olhe para o lado não comercial da arte”, mas ressalva: “Não que não tenha de haver lei Rouanet, mas por outro lado é preciso existir algo não atrelado à renúncia fiscal. Queremos diálogo”. De acordo com o artista, “arte pública não é produto, não é vendável, não tem preço e não tem como vender. O governo tem de assumir o papel de fomentar essa arte”.

Se Pavanelli espera diálogo e uma política que insira a arte pública como uma atividade financiada por verbas públicas “sem intermediários”, Capilé, do Fora do Eixo, tem a expectativa de que aumentem os recursos para a cultura, “que praças sejam transformadas em espaços culturais, que o governo faça um link entre a cultura e o transporte coletivo 24 horas por dia, além de políticas conjuntas com o ministério, em Brasília”.

Comparação

Já o produtor cultural independente Lucas Pretti está cético. Para ele, “a grande questão é que qualquer coisa comparada com o que tinha é muito bom”. “Mas não estou muito animado, pois tem uma cultura dentro do PT que é um pouco uma política de balcão”. As expectativas de Pretti são de que “vai ter uma mudança, mas Juca Ferreira vai contemplar os amigos, uma cultura que se formou no PT e na gestão do ministério, menos na gestão Gil do que na de Juca Ferreira”.

Pela visão de Pretti, a nomeação de Ferreira serviu para minimizar e contrabalançar os descontentamentos criados por outra pasta: “Ouviu-se muita crítica de alguns setores com a nomeação de um aliado de Paulo Maluf (PP) para a Secretaria de Habitação. A nomeação de Juca cria um fato novo, é uma estratégia política”, analisa. “Independentemente disso tudo, o processo democrático está acima das disputas. É melhor uma gestão que vai implantar CEUs, fazer corredor de ônibus, por exemplo. Mas ainda é uma política de amigos”, diz o produtor cultural.

A cantora e atriz Lilian de Lima, da Companhia Tijolo, prioriza “dar continuidade ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro”. Mas, para ela, mais do que isso, é importante dar oportunidade “a novas propostas de linguagem que têm ficado de fora”. De modo geral, diz Lilian, “qualquer tipo de iniciativa que coloque arte na rua é importante”.

Sobre a grande vitrine da gestão do ex-prefeito José Serra (PSDB) e do atual, Gilberto Kassab (PSD), a Virada Cultural, a atriz acha importante. “Mas poderia acontecer mais vezes por ano, seria bom se pudesse se expandir para a periferia, tornando-se um evento que se realizasse mais vezes e fosse mais pulverizado. É importante abrir espaço para pessoas participarem gratuitamente a preços populares. O artista quer ouvidos para ser ouvido e olhos para ser visto”, diz.