Jornalismo vira-lata

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Publicado terça-feira, 24 de setembro de 2002 as 00:01, por: cdb

Olha, às vezes desanimo com o nível do jornalismo praticado hoje no Brasil. É um tal de fazer as coisas de qualquer jeito, nas coxas, que realmente me faz baixar a cabeça de vez em quando. O motivo da vez para a deprê foi aquele “furo internacional” supostamente dado pelo The Times denunciando que o Brasil vendeu urânio enriquecido ao Iraque durante a ditadura militar. Os coleguinhas daqui caíram em cima, repercutindo a denúncia feita pelo jornal londrino, louvado pela descoberta. O problema é que a informação é velha (de mais de 20 anos) e a denúncia foi provada, com fotos e documentos, num livro que está à venda desde 1996, obra de uma jornalista.

E não foi escrito por uma honesta, porém esquecida, coleguinha dos cafundós dos judas, não. O nome dela é Tania (sem acento mesmo) Malheiros, conhecida exatamente por ter desmascarado o programa nuclear paralelo tocado pelos militares durante a ditadura em matérias publicadas nos anos 80 e 90 na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo e no Jornal do Brasil. E não foram matérias sem repercussão também não. Por uma delas (“Aramar teve acidentes radioativos”, que saiu no JB em fins de 96), Tania ganhou o Prêmio Esso de Informação Científica, Ecológica e Tecnológica de 1997, no único caso, salvo engano, de um Esso concedido a uma freelancer (o JB publicou a matéria, mas a Tania era apenas frila de lá).

O livro em que consta, desde 1996, o “furo” do The Times é “Histórias Secretas do Brasil Nuclear”, editado pela Mauad – editora de médio porte aqui do Rio, de propriedade de Isabel Cristina Mauad, também coleguinha detentora de Esso. Na obra (ela tem outra, “Brasil, a bomba oculta”, mais antiga e também da Mauad), Tania prova a tal venda de urânio enriquecido do Brasil para o então benquisto Iraque por parte do governo militar do Brasil. Profissional ao extremo e bom caráter, ela conta ainda que a primeira menção ao negócio foi feita pelo repórter Paulo Andreolli, em matéria publicada em 17 de junho de 1981 no Estadão. Como era praxe na época, houve negativas e “operação-abafa”, tudo bem-sucedido porque não deu para obter os documentos conseguidos uma década e meia depois por Tania.

Qual a razão para semelhante absurdo? Bom, acho que parte da explicação está em Nelson Rodrigues. O grande tricolor defendia que muitos anos antes de 58 o Brasil já tinha o melhor futebol do mundo, mas não ganhava a Copa porque sofria de uma mal típico do brasileiro: o Complexo de Vira-Lata. Esta anomalia psicológica faz com que achemos que tudo o que vem de fora é melhor e/ou mais forte, e por isso metemos o rabo entre as pernas.

No caso do jornalismo, a tudo o que sai na imprensa estrangeira é concedido foro de verdade inquestionável, sem possibilidade de crítica. O caso da Tania-The Times é um exemplo surreal, mas todos os dias vemos coisas do tipo nas páginas e nas imagens de TV, principalmente na área de Economia (tem coleguinha que defende o Consenso de Washington com uma veemência que nem o Malan ostenta mais), Internacional (as poucas análises sobre a situação mundial vêm da imprensa internacional, obviamente sob a ótica do cidadão do país onde foram produzidas e representando seus interesses) e Cultura, se bem que, neste caso pelo menos, a taxa de viralatice tenha diminuído nos últimos tempos, embora não o bastante.

Já está mais do que na hora de voltarmos a ter um mínimo de senso crítico. Quanto mais não seja, para pelo menos termos alguma moral quando formos criticar pessoas e instituições de falta de memória, de falhar em análises e de não ter agenda própria.

Ivson Alves é jornalista