Johnny continua indo à guerra

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Publicado quarta-feira, 29 de setembro de 2004 as 10:53, por: cdb

Passa no Festival do Rio uma retrospectiva do polêmico cineasta/ documentarista/ repórter Peter Davis. Nesta terça ele foi apresentar seu mais famoso trabalho, Corações e mentes, no Odeon. A fita foi produzida nos últimos anos da guerra do Vietnã (72,73) e lançada no primeiro ano após seu término, em 74. Para a época, é um documento real do inconsciente jovem daquela América que perdia suas novas gerações para a máquina econômica (situação evidenciada décadas depois em filmes/ estudos como JFK, de Oliver Stone).
 
Davis apresentou seu filme explicando o que o fez faze-lo, naquela época, associando a três questões circunstanciais. O forte mesmo é o que continua acontecendo nos dias de hoje, no Iraque: para que estamos em guerra? O jovem que foi para o Vietnã perder suas pernas, braços e ficar viciado em drogas foi na ingenuidade, na fé na América, na igreja e na família. O mesmo jovem voltou ao Golfo e agora ao Iraque. E a pergunta continua exatamente a mesma, pelo menos para eles, como vemos em entrevistas e reportagens.
 
O que está em jogo em Corações e mentes é o que falta em um Michael Moore: a seriedade em querer realmente impor um incômodo social, fora de qualquer ufanismo pátrio ou afetação ideológica. Não é acusar por acusar, mas simplesmente apresentar. Apesar do uso, ainda que escasso, de técnicas que são impregnadas em filmes como Tiros em Columbine e Farenheit 9/11 – a de uma busca forçada de emoção a partir de uma apresentação dramática pré-encenada por vítimas da dor. A seqüência-diálogo entre um filho desertor e sua mãe é um tremendo dispositivo de programa barato de TV, nada muito diferente da ida de uma mãe indignada com a morte do filho à Casa Branca, em Farenheit. Polemizar é fácil, discursar com as evidências em que se trabalha é que complica.