João Amazonas morre e PC do B lamenta perda de herói da resistência à ditadura no Brasil

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Publicado terça-feira, 28 de maio de 2002 as 12:12, por: cdb

Foi levado,hoje, ao crematório da Vila Alpina, em São Paulo, o corpo do presidente de honra do PC do B, João Amazonas, que morreu ontem, às 15h, vítima de complicações pulmonares. Ele tinha 90 anos e estava internado desde terça-feira passada na UTI do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. Amazonas esteve à frente do PC do B desde 1962 até dezembro do ano passado, quando deixou a presidência do partido por questões de saúde. Sua última entrevista, dada à repórter Denise Assis, foi publicada no Jornal do Brasil em 12 de abril deste ano.
João Amazonas de Souza Pedroso nasceu em 1º de janeiro de 1912, em Belém. Em 1935 ingressou no Partido Comunista e logo passou a integrar sua direção no Pará. Em 1940, no Estado Novo, foi preso e condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional. No ano seguinte fugiu da prisão juntamente com quatro militantes do PC, reintegrando-se ao partido, para cujo Comitê Central foi eleito em agosto de 1943.

Em 1945, com o fim da II Guerra Mundial e a deposição de Vargas, foi eleito deputado constituinte pelo Distrito Federal, na bancada do PC. Em janeiro de 1947 o partido perdeu o registro e, um ano depois, os parlamentares comunistas tiveram os mandatos cassados.

Em fevereiro de 1956, quando no XX Congresso do PC da então União Soviética, o novo dirigente máximo, Nikita Kruschov, denunciou os crimes do antecessor Josef Stalin, abriu-se uma crise no movimento comunista internacional. No Brasil, o secretário-geral Luís Carlos, ao lado da maioria do partido, alinhou-se com os comunistas soviéticos. Amazonas esteve entre os que não aceitaram as críticas a Stalin.

Em fevereiro de 1962, juntamente com Diógenes Arruda e Pedro Pomar, Amazonas liderou a dissidência que criou o PC do B — ou, em suas palavras -, reorganizou o partido, que se alinhou com o PC chinês, também adversário da desestalinização.

Com a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964, os partidos de esquerda, que não estavam na legalidade mas eram tolerados, foram para a clandestinidade. O PC do B começou, então, a preparar a luta armada contra o regime.

Em 1968 Amazonas deslocou-se para o Sul do Pará, onde, com outros militantes, estabeleceu vínculos com a população local, criando bases para uma guerrilha rural. Descobertos em 1972 pelo Exército, os integrantes do PC do B se refugiaram na mata.

Três anos depois, a guerrilha do Araguaia estava aniquilada. Quase todos seus membros morreram em combate ou foram assassinados depois de presos. Amazonas, o principal dirigente do PC do B na área, conseguiu escapar.

Em 1976, após o chamado massacre da Lapa, quando a maioria da direção do partido foi morta, Amazonas se exilou na Albânia, que àquela altura substituíra a China como a principal aliada do PC do B. Com a anistia, voltou ao Brasil em novembro de 1979. Em julho de 1985 o partido tornou-se legal e Amazonas foi eleito seu presidente.

Aliados e adversários do líder comunista reconheceram ontem a coerência de sua trajetória, lamentando sua morte. ”Amazonas lutou por ideais e deixou sua marca nas lutas populares”, disse o presidente Fernando Henrique Cardoso. ”O Brasil perde uma personalidade histórica”, afirmou André Singer, porta-voz do candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva.

”Amazonas foi um militante apaixonado, que passou a vida lutando por uma sociedade nova”, disse Apolônio de Carvalho, 90 anos, fundador do PT. ”Ele acreditou no ideal ao qual dedicou a vida, mostrando coerência”, foram as palavras de Jarbas Passarinho, ex-senador. ”Amazonas foi um líder comunista atuante. Peço a Deus que esteja em bom lugar”, disse Armando Falcão, ex-ministro da Justiça.

O corpo de Amazonas foi velado na Assembléia Legislativa de São Paulo.