Jessica Brasileira

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Publicado segunda-feira, 10 de novembro de 2003 as 10:35, por: cdb

Jessica Lynch, 19 anos, uma típica garota do interior dos EUA, lutou até a última bala contra o inimigo. Seus companheiros de comboio foram todos mortos. E ela, baleada e ferida a faca, foi levada para um hospital iraquiano. Dias depois, forças especiais norte-americanas, numa ação espetacular, resgataram a jovem soldado após um combate feroz com as forças leais a Sadam que guarneciam o hospital. O governo Bush não perdeu tempo. Divulgou a estória de Jessica pelo mundo afora como símbolo da bravura dos militares americanos na guerra do Iraque.

Jessica voltou como heroína nacional, com direito a desfile em carro aberto, além de medalhas e condecorações. Sua coragem foi recompensada com uma casa própria e o pagamento dos estudos até a Universidade. Da menina simples do interior, Jessica virou celebridade mundial. E o convite para transformar sua estória em livro não demorou. O contrato com a editora lhe rendeu a quantia de um milhão de dólares.

Mas, como se sabe, a mentira tem pernas curtas. E a primeira a denunciar a farsa foi a respeitável BBC de Londres, numa reportagem em que provou que o resgate de Jessica não foi tão rocambolesco como espalhou o Pentágono. O hospital estava praticamente abandonado e foi um funcionário iraquiano que avisou aos militares americanos da presença da jovem no local. E esta semana, para completar o desastre, a própria Jessica, em entrevista à rede ABC, confessou que não deu um tiro sequer. E os ferimentos que apresentava eram consequência do acidente com a caminhão que ela dirigia. Perguntada se tinha caído como um Rambo, ela disse: “não, caí de joelhos, rezando”. E agradeceu aos iraquianos que lhe salvaram a vida.

A estória da moça levou-me a imaginar como seria se Jessica tivesse nascido no Brasil e se alistasse como voluntária para ir à guerra. Como seria seu retorno ao Brasil?

Certamente, seria recebida como o mais novo símbolo sexual da temporada, sendo eleita a musa do verão, com direito a entrevistas no Jô e na Hebe; retrospectiva de sua vida no Faustão, além de convites irrecusáveis para posar nua na Playboy e para estrelar a próxima novela das oito. Engordaria sua conta bancária com comerciais de vários produtos e ganharia também um programa feminino numa de nossas TVs, dando dicas para as mulheres de como ser heroína sem fazer força.

Para não ficar com sua imagem ligada apenas a frivolidades, Jessica se engajaria na campanha contra a fome do Presidente Lula, recebendo dele a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Palácio do Planalto, com direito a um churrasquinho regado a cerveja gelada na Granja do Torto que ningém é de ferro! Para mostrar sua preocupação com os descamisados, visitaria um acampamento dos Sem-Terra e depois posaria ao lado da classe artística assinando o manifesto contra a punição de Gerald Tomas, processado por ter tirado a calça e mostrado a bunda para a platéia. No Carnaval, seria enredo ou madrinha da bateria de uma de nossas escolas de samba.

Tenho certeza de que você, leitor, deve ter muitas outras idéias do que fazer com nossa “heroína”, pois imaginação é o que não falta e tenho certeza de que um ano inteiro seria pouco para tantas homenagens.

Mas tudo isso não passa de uma grande brincadeira, para destacar o bom humor e a irreverência do Brasileiro. Na verdade, o Brasil não precisa de heroínas, como Jessica. Nós já as temos até demais. São aquelas anônimas e batalhadoras mulheres que lutam pela sobrevivência do dia a dia em vários segmentos da sociedade, numa guerra cada vez mais selvagem e injusta contra a miséria e a violência.

Nossas heroínas são verdadeiras. A elas, a nossa homenagem e o nosso respeito.

Nota da Redação: Neste domingo (09/11), a rede americana NBC levou ao ar o filme Saving Jessica Lynch (o Resgate de Jessica Lynch). O filme confirma que Jessica não deu um único tiro e ficou ferida quando o caminhão em que viajava capotou tentando fugir do fogo inimigo. A cena do resgate de Jessica do