Ivan Lessa: Khadafi Muamará?

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Publicado sexta-feira, 26 de agosto de 2011 as 03:39, por: cdb

Veremos o que a História, essa velha e sábia mestra, segundo o historiador inglês Eric Hobsbawn, dirá de Khaddafi. Um homem feito de contradições, como quase todos nós, mas líbio, o que não é o caso de todos, mas tem, e deve estar no Livro Guinness, seu nome pelo menos 138 grafias, conforme apontou o matemático Oswald de Souza.

Aqui na BBC Brasiloptou-se sóbria e inteligentemente por Khadafi, conforme o título deste dissertar.

Estou cansado, no entanto, de anotar outras formas de grafar o nome do homem que, segundo seus defensores, que raream a cada hora e dia, há 42 anos, deu uma reviravolta nos destinos de seu país nacionalizando empresas, bancos e reservas petrolíferas.

Ficasse nisso e tudo bem. Ou tudo mal, segundo os que colecionam teorias conspiratórias.

Desse estopim nacionalizador nascem os contragolpes e as intervenções estrangeiras. Basta ver o caso do Iraque, sem armas de destruição em massa, mas rico em petróleo. Deu no que deu.

Mas o poliafamado líder buscou para acoplar à bandeira de seu país um lema pouco original no uso mas raro na prática: Liberdade, Justiça e Democracia. Muita bandeira e pouco lema, na verdade.

Mais um fato que ninguém gosta de mencionar: Khadafi, ou seja como for, era capitão antes de tomar o poder e de lá pulou, apenas modestamente, para a patente de coronel, numa homenagem a seu ídolo, o coronel egípcio Gamal Abdel Nasser. Nunca se promoveu a general ou marechal. Fosse em outros países…

Poliafamado. Quer dizer, de várias grafias, aspecto que reflete sua personalidade contraditória e multifacetada.

Assim, de estalo, no meu caderninho verde em espiral, onde anoto as coisas que me chamam a atenção, por um motivo ou outro, vejo lá: Gaddafi, Gadafi, Gadáfi, Quadáfi e até mesmo, numa folha obscura do nosso Nordeste, Gadárfice.

E isso sem chegar a seu primeiro nome que é Muammar, com dois Ms, ao que parece, mas pode ser com um só, que não muda muito as coisas.

Os sobrenomes já citados, e os inúmeros ainda por citar, são sempre precedidos por al e um tracinho. Assim: al-. Outras terras, outros modos.

Parece que, no original árabe, trata-se do nosso modesto artigo definido ?o? ou ?a?. Feito o ?de? francês, o ?of? inglês, o ?el? espanhol, o ?von? alemão e o nosso primo pobre ?de?, feito em João da Silva, sem petróleo até para o isqueirinho mata-rato, se é que existe tal troço para acender cigarro da mesma laia. (?Laia? é uma boa palavra. Espero que não a retirem de nossos dicionários, nem que seja, como um milico, reformada.)

O mundo, graças à mídia eletrônica e impressa, assiste aos bravos rebeldes, essa gente de uma só grafia, cada vez mais perto da vitória final que a todos os problemas do país resolverá.

Curioso como estão bem armados. Ainda não vi ninguém na televisão, jornal ou revista me explicar a origem das armas. Acharam na rua? Um homem muito bom lhes deu? Essas desculpas que as adúlteras dão para a jóia nova com que aparecem em casa: acharam. Teve uma que chegou, há séculos, a achar na rua um Impala novinho em folha.)

Os caças internacionais dão sua mãozinha aos libertadores, por puro desinteresse, está evidente.

Ah, bravo pugilo (também deixar nos dicionários) de líbios idealistas que levou 42 anos para ver a luz!

Foi, de certo, a luminosa primavera, que, este ano, baixou para valer no mundo árabe. Vide o caso da Síria, onde o presidente, com seus vastos olhos azuis (eu gostaria de dar umas braçadas neles), em entrevista para a TV de seu país, afirmou, em outras palavras, que na Síria é sempre verão e a primavera uma nefanda (palavra quase, quase obsoleta) conspiração ocidental. Vai ver é mesmo.

A esta altura, neste fim-de-semana, agora mesmo, capaz de Muammar já ter sido trancafiado, morto ou se mandado para um paraíso ditatorial (Chade e Sudão? No lo creo).

Sou sempre o último com as primeiras. É porque, como o pombo da anedota, eu vivo parando para ver a paisagem. Muamo. E pronto.

Ao menos para alguma coisa estas mal digitadas serviram. Cunhei, para uso geral, o verbo Muamar, que significa apenas nenhuma violência, pouco idealismo, prazer em observar o lado positivo que quase todo – basta procurar direitinho – acontecimento ou pessoa tem.

Dois exemplos dão uma ideia da variedade do verbo muamar.

Os órgãos de comunicação informaram, na quinta-feira, que, segundo a prestigiosa revista de negócios americana, a Forbes, Angela Merkel, Hillary Clinton e Dilma Roussef são, nessa ordem e nesse progresso, as três mulheres mais poderosas do mundo. É um fato a se muamar, pois o verbo não tem contra-indicações nem sentidos pejorativos. Nós muamamos a presença da presidenta brasileira pegando medalha de bronze em companhia tão ilustre.

E Steve Jobs deixou deixou o comando dessa favorita dos nerds, a Apple, por motivos de saúde. Fato que fere nossa sensibilidade muamar.

Ouço, em meus delírios, o colóquio entre amantes ainda por nascer e amar: “Tu muamas?”

E ela, dengosa: “Você sabe que eu me tuamo. Quer dizer…”

Ele sabe. Nós sabemos.